Neófitos e Sangue-Ralo

Por muito tempo os anciões cainitas reinaram entre seus iguais como líderes impetuosos que faziam o que fossem necessário para manter o controle sobre as suas crias. Já era sabido a muito tempo que a cada nova geração de vampiros, o sangue se tornava cada vez mais fraco como um prenúncio do fim dos tempos. Alguns herdeiros de Cain acreditam que tudo não passa de conversa fiada de um ancião que não tem mais do que fazer, mas existem aqueles que estão vendo esta profecia acontecendo.

Este é o caso de Diana, uma mulher de classe média, cabelos castanhos assim como seus olhos, estatura baixa e de aparência comum. Ela foi abraçada em mil novecentos e noventa em Amaya logo que completou vinte e cinco anos, mas sempre se manteve distante dos assuntos da Camarilla por não gostar de burocracia. Sua não vida como vampira se resumia a auxiliar desabrigados além de ser uma maneira fácil de se alimentar porque ninguém além dela e de alguns voluntários de seu projeto social se importavam com as vidas das pessoas que não tinham um teto sobre a cabeça. O que os desabrigados sabiam era que Diana estaria pontualmente às 20h no Centro de Assistência Social de Amaya que fica no centro da cidade.

Entre as dezenas de pessoas que Diana auxiliava com seu projeto, estava uma garota de olhos verdes, cabelos pretos, pele queimada de sol, pequena e com uma voz consideravelmente bela. A primeira vista ela não aparentava ter mais do que vinte anos de idade, mas seus olhos demonstravam que ela já havia visto muito mais do que aqueles que estavam na mesma situação que ela. Como os demais diante da fila da sopa, a garota pegou uma tigela para se alimentar a aguardou a sua vez. Diana a serviu.

– Oi, garota! Esta noite está bastante fria, não é? – questionou Diana.

– Sim, moça. Eu fico feliz por vocês nos deixarem dormir aqui. Muito obrigada por nos ajudar. – respondeu a garota e rapidamente saiu da fila.

Diana ficou impressionada com a educação da menina e a observou durante toda a noite. Havia algo diferente nela, mas não era possível definir o que seria. A curiosidade da vampira foi atiçada e todos os passos da garota da voz encantadora começaram a ser traçados.

Algumas noites depois, Diana estava servindo a comida dos desabrigados como fazia todas as noites. A garota, novamente, apareceu como a tigela em mãos, só que aparentava estar um pouco mais abatida como se estivesse com uma gripe muito forte. Os olhos delas se cruzaram, mas não houve qualquer troca de palavras entre elas. No entanto, ao terminar de servir as últimas pessoas, Diana procurou a garota no arredores e não a encontrou. Com cautela para evitar uma quebra de máscara, a cainita usou de suas capacidades sobrenaturais para encontrar a menina.

Becos, vielas, desmanches, barracos, veículos abandonados. Ela não estava em lugar algum. O que mais preocupava Diana era uma suspeita de que a garota não era mortal ainda que tivesse a aparência de uma humana que acabara de entrar na vida adulta. Sem muitas opções, Diana decidiu voltar ao centro da cidade e aguardar algum sinal da menina que desapareceu em meio a garoa da cidade que nunca dorme.

Mais algumas noites se passaram e a garota não apareceu para o jantar que, provavelmente, era sua única refeição diária. Diana, preocupada com a menina, começou a perguntar para todos os desabrigados quem era a garota, de onde ela vinha, o que fazia e se sabiam de algo sobre o paradeiro dela. Nenhum deles sabia como responder as perguntas e isso tornavam as coisas ainda mais estranhas. Como seria possível uma pessoa desaparecer desta forma e ninguém ao seu redor saber nada sobre ela. Frustrada, Diana contatou sua coterie e deu início a caçada por meio da seguinte ordem.

– Encontrem a garota e tragam-na até mim. Ela deve ser um deles…

Diana, Olavo, Renato, Andressa e Lara, cobriram a cidade toda como podiam. Olavo contatou alguns de seus detetives e seguiu junto com alguns ratos pelos esgotos. Renato tirou sua moto de uma de suas garagens e seguiu para o centro de Amaya. Andressa foi em busca das boates, mas infelizmente não poderia entrar na festa e teve que seduzir uma das seguranças para ter acesso aos fundos do prédio onde ficava o lixo. Lara havia pedido um fio de cabelo da garota noites atrás para Diana a fim de encontrar a garota e o fez.

– Diana, ela está nas docas. Este é um território perigoso depois do que aconteceu no Farol. Eu estou a caminho.

– Obrigada, Lara, mas eu preciso cuidar disso sozinha.

Chegando às docas, Diana seguiu a trilha indicada por Lara e o cheiro de putrefação indicou uma caminho a ser seguido. Evitando as câmeras de segurança, Diana chegou a um dos galpões no qual haviam goteiras, trapos e rastros de sangue. Com sua audição sobrenatural, Diana ouviu sons de mordidas e sucções. Lá estava quem ela procurava.

A garota estava banhada em sangue. Cadáveres espalhados ao seu redor junto com mochilas de entregadores de comida. Assustada e por instinto, a garota tentou um ataque contra Diana que, sem esforço algum, segurou a menina pelo pescoço e bateu a cabeça dela contra o chão dando início a um breve interrogatório.

– Olhos belos demais para ter crescido nas ruas. Quem é você, garota esfomeada?

– Eu sou Iris.

– Iris, como isso tudo começou?

– A algumas semanas eu estava na Cidadela com algumas amigas. Nós bebemos muito e algum tempo depois uma mulher me beijou e as coisas ficaram… Enfim, depois disso eu acordei em casa e estava com fome. Eu mordi a Belinha, minha gata, e depois fugi. Animais e pessoas são iguais para mim. Eu não sei mais quem ou o que eu sou. Ainda ando de dia, mas minha pele arde e a noite eu tenho fome, mas não é de comida.

Diana sabia: Iris era uma das crias de Lilian. Ela então estendeu a mão para a garota, ligou para Renato e disse para levá-la a casa da coterie. Quando todos se reuniram, ficaram incrédulos ao saberem do que houve.

– Então ela é uma Sangue-Ralo como naquela maldita história do Hélio? Não é possível que o Ventrue estava certo. – falou Lara.

– Não me surpreende, Lara. Eles sabem mais do que fala. – afirmou Olavo com desdém.

– Lara está certa, Olavo, os Ventrue sempre escondem o jogo até o fim. – disse Diana.

– Por isso que eu prefiro viajar por aí com a minha moto. Essa politicagem da Camarilla e da Anarquia são uma merda! – exclamou Renato enquanto fazia uma careta.

Andressa então se aproximou de Iris e deixou algo bem explícito.

– Garota, nós vamos te ajudar, mas agora você é uma de nós. Primeiramente, você é uma vampira e você pode andar no sol diferente de nós cinco aqui. Você pode morar aqui com a gente, mas vai ter que merecer. Cuide da casa, pode até trazer alguns amigos seus ou algum animal de estimação desde que não o devore porque eu gosto de animais. Só que você vai encontrar outros como você e eles vão seguir as mesmas regras.

Iris ainda estava confusa com tudo aquilo, mas aceitou. Não teria mais que morar nas ruas nem mesmo atacar entregadores para se alimentar. Sangue e comida comum eram a mesma coisa para ela que, agora, precisava encontrar outros vampiros iguais a ela. Iris caminha agora por dois mundos, tem uma missão a cumprir e agora conhece um mundo de trevas.

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