O Julgamento da Névoa Rubra – Lumius

“Meu nome é Elloran, nascida nas Ilhas de Naylo no Arquipélago de Ael’Fellor. Atualmente eu tenho cento e vinte e cinco anos e eu era uma estudante da Academia de Artes Arcanas de Lumius. Sinto falta de caminhar pelas bibliotecas da Academia Arcana e dos estudos ao lado de Beluna. A ansiedade de Agatha, filha de meu mentor Salazar, para desbravar o mundo e conhecer mais sobre a Essência era contagiante e me fazia lembrar de meu irmão mais novo, Letriel. Espero que ele e Alron venham me visitar em breve. Nunca imaginei que minha a sede pelo conhecimento seria a minha ruína.”

“Sem ver a luz do sol eu já não sei quanto tempo faz desde que eu fui encarcerada nas Masmorras do Eclipse. Este foi o nome que os humanos deram a antiga fortaleza feérica que fica nas profundezas de Lumius. Não tenho acesso aos meus grimórios para continuar minhas pesquisas, não posso conjurar magias porque não tenho componentes nem minhas luvas de seda. Por que o Mestre Salazar deixou o escritório vazio? A voz se parecia com a dele quando fui convocada para encontrá-lo e lá estava o Grimório de Krivoc, o Dracolich e Primeiro Necromante, em cima da mesa de seu escritório. Uma leitura curiosa me condenou.”

“Tudo o que me resta agora é aguardar até que me tirem daqui. Ao menos eu sou alimentada periodicamente pelos carcereiros e as noites de estudos me prepararam para ficar sozinha. Espero que tudo isso termine bem para mim.”

Este era o pensamento de Elloran na noite anterior de seu julgamento. Algumas semanas antes, ela havia sido capturada por um grupo de aventureiros que impediram que um ritual profano acabasse com a vida no Continente de Aylin. Uma bruma arcana foi conjurada no antigo Pináculo de Krivoc, um local que serviu por séculos como laboratório e covil para o Dracolich que foi banido para um plano desconhecido por Lucius com a ajuda de Norian, a Primeira Arquimaga e Campeã Nova, a última sobrevivente da segunda geração de Campeões Lunares.

Quando amanheceu, uma guarda da masmorra trouxe comida para a jovem elfa que aguardava ansiosamente o seu julgamento. Uma humana de pele escura e olhos verdes. A mulher que usava uma armadura completa e ornamentada com prata se aproximou da cela, entregou o pote de comida de Elloran e então chamou-a pelo nome enquanto olhava para seus mágicos olhos azuis.

– Eu já te imaginei presa de diversas formas, Elloran. Todavia, nenhuma delas envolvia uma condenação. – disse a mulher.

– E quem é você? Por acaso é a responsável pela minha sentença? – retrucou a elfa.

– Acho que você deveria se lembrar de mim depois de tudo que você e Tyler fizeram para me trazer de volta.

A mulher então removeu seu disfarce e revelou seus verdadeiros trajes. Uma roupa de couro batido, manoplas em ambas as mãos, uma tatuagem tribal que cobre todo o peitoral de ombro a ombro e cabelos cacheados. Sara Blackheart, a Sombra Dracônica e Algoz Argêntea.

– Sara?! Por que você está aqui? E por que está disfarçada?

– Escute bem, pois eu não tenho muito tempo antes que me descubram. Arthur trouxe seus irmãos de Ael’Fellor para acompanharem o seu julgamento e os Aniquiladores da Névoa Rubra, como ficaram conhecidos os seus captores, talvez estejam presentes também. Apenas diga a verdade sobre o que houve. Seja ela qual for.

– Humanos ouvem apenas o que querem ouvir, Sara. Você mesma sabe disso por conta de sua influência na Cúpula das Sete Presas. Você acredita que eles ouviriam a elfa que foi dominada por uma criatura ancestral e profética?

– Eu não sei o que eles vão ouvir ou não e não posso testemunhar no julgamento, mas você sabe que humanos podem ser justos ainda que muitos sejam cruéis. As vidas deles são curtas e isso faz com que eles perdoem com mais facilidade. Se você for honesta e houver testemunhas a seu favor, você, com toda certeza, ficará bem.

– Você fala como se não fosse uma humana, Sara.

Os olhos de Sara começaram a perder o tom esmeralda e se transformam em um vermelho escarlate assim como a parte albina foi tomada por veias pretas que os globos oculares escuros como uma noite eclipsada. Um par de presas aparecem e o belo rosto da Sombra Dracônica se tornou bestial.

– Eu não sou mais humana desde que vocês me resgataram. Espero que você seja absolvida.

Ao terminar de falar, Sara assumiu sua forma sombria e deixou Elloran sozinha novamente.

Algumas horas mais tarde, uma escolta dos Lobos Crescentes apareceu para levar Elloran à superfície para se limpar. Foi preparada uma refeição abastada e ela aproveitou como se fosse, e talvez seria, a sua última. Mais algum tempo depois ela ouviu duas vozes familiares. Uma delas era calma e outra levemente cantada.

– Pela graça de Sólen, você está bem, irmã! – exclamou Alron, um elfo ruivo e irmão mais velho de Elloran.

– De todos os problemas que você costuma arrumar, eu acho que este foi o pior. Estamos aqui contigo, irmãzinha. – disse Letriel, um elfo de cabelos pretos, olhos amarelos e com uma cicatriz no rosto.

– Eu estou feliz em vê-los, irmãos. É frustrante ter tido tanto conhecimento em mãos e ele ter se esvaído como areia pelos meus dedos. Vocês tem ideia do que eu poderia fazer com a essência de um Dragão de Sombras? Agora sou apenas mais uma elfa.

Alron e Letriel se entreolharam enquanto Elloran demonstrava sua raiva por ter perdido aquilo que, de uma forma ou de outra, lhe pertencia. Eles ficaram ao lado dela em silêncio até que Lobos Crescentes retornaram para levá-la. No caminho, até a Cúpula das Sete Presas, Elloran reconheceu alguém.

Um homem de cabelos brancos com roupas pretas que não revelavam o seu rosto. Era um dos homens que acompanhava Salazar Sangr’alma, seu mentor no dia que tudo começou. Não havia o que ela pudesse fazer naquele momento além de continuar caminhando. O destino de Elloran começava a ser traçado.

Diante da elfa estavam As Sete Presas, os ministros do Reino Argênteo de Lumius. Logo atrás deles estavam a Reitora da Academia de Artes Arcanas ao lado do Príncipe Credrick Presaprata e, na cadeira mais alta, o Alto Rei Marcellus II. O público que acompanhava o julgamento era diverso. De canto de olho, Elloran avistou Beluma próxima de uma parede enquanto que Sara estava no extremo oposto. O homem que vira anteriormente não se fazia presente no local e alguns conhecidos seus estavam presentes: a filha de Salazar Sangr’alma e os Aniquiladores da Névoa Rubra.

– Eu, o Alto Rei, dou início ao julgamento de Elloran das Ilhas de Naylo, conhecida como a Névoa Rubra e Arauto da Cólera de Krivoc.

Todos aqueles que adentraram ao recinto tomaram seus acentos nas arquibancadas. Maise, Dan, Agatha, Satori e Kwan ficaram a esquerda da sala. Noora ficou a direita próxima de Sara e de frente para Beluma. Tony, disfarçado, se misturou entre os nobres que acompanhavam o julgamento e Mikkel ficou no fundo da sala próximo da porta. Então o Alto-Rei Marcellus II se pronunciou.

– Elloran das Ilhas de Naylo, reprovada na Academia de Artes Arcanas de Ael’Fellor, estudante da Academia de Artes Arcanas de Lumius e candidata a concessão da Licença de Conjurador de 6º Ciclo. Como você se declara?

– Eu nunca imaginaria que a minha busca por conhecimento seria a minha ruína. Assim como todo mago, eu sou uma estudiosa que busca desvendar os mistérios de Aylin e do universo. Eu me declaro inocente, Majestade.

Todos se indignaram. O Alto-Rei então chamou pessoas que possuíam um relacionamento próximo ao de Elloran. Beluma foi a primeira a se manifestar. Ela era estudante da Academia Arcana de Lumius e colega de Elloran. Quando questionada, Beluma não hesitou.

– Elloran é brilhante. Como ela mesma disse, se considera inocente. Todos aqui presentes sofreram por causa de seus atos. Ela é acusada pela Academia por ser a responsável pelo desaparecimento do Mestre Salazar Sangr’alma. Seja lá o que ela tenha feito, façam com ela o que bem entenderem.

– E qual prova você tem para agir desta forma? – indagou Noora.

– Nenhuma. E quanto a você?

Neste momento, Maise se lembrou do diário de Elloran, mas não o tinha em mãos. O livro estava com Nyx em Inférnia. Foi então que ela comunicou isso à Noora que continuou sua fala.

– Majestade, nós não temos provas em mãos, mas sabemos de um diário que pertence à Elloran.

– E, aparentemente, ela estava sendo controlada por algum tipo de patrono ou entidade. – disse Maise.

– Pois bem. – disse o Rei. – Se fossemos aplicar as leis de Lumius, Elloran seria executada. No entanto, o julgamento ocorrerá nas demais Capitais Lunares e vocês devem apresentar este diário no próximo julgamento que acontecerá em Inférnia.

Noora e Maise concordaram e o julgamento continuou com uma longa discussão sobre leis. Sara Blackheart, Líder dos Dragões Negros, interrompeu os ministros e começou a se pronunciar sobre Elloran.

– Vocês ousam julgar a vida de uma criatura que leva uma vida humana inteira para amadurecer e que vivem centenas de anos por meio das nossas leis. Isso é o que chamam de justiça? Por que é que ninguém procurou o histórico de Elloran na Academia Arcana ou qualquer informação relevante para isto que vocês estão chamando de julgamento?

Agatha pediu a palavra e se levantou. Ela tirou o Grimório de Elloran que Maise havia lhe entregado e uma carta de Salazar que falava sobre a sua jornada. Depois de algum tempo, esta foi a primeira prova relevante sobre a inocência de Elloran.

– Esta é uma carta de meu pai relatando o que ele fez. Espero que isto ajude em algo.

A Reitora Arcanista Alícia Elladrion foi até Agatha, segurou o grimório de Elloran e a carta de Salazar enquanto tocava as mãos de Agatha e a olhava nos olhos. Elloran sentiu o calor da esperança aquecer o seu peito, mas continuava apreensiva. Alícia, por sua vez fez um gesto em agradecimento a Agatha e voltou para o seu lugar.

Satori se levantou depois de algum tempo e foi precisa em seus comentários. Ela olhou para o público e para o rei e disse.

– Aparentemente Agatha também foi controlada poo Krivoc e resistiu a ele.

Todos ficaram pasmos com o que havia acontecido e começaram a conversar entre si até que foram, uma vez mais, interrompidos por Kwan que se pronunciou.

– Alto lá! Parece que todos aqui tem a inteligência semelhante à do meu amigo aqui. – disse apontando para Dan e prosseguiu. – Vocês não conseguem enxergar o óbvio? Até agora nenhuma prova foi apresentada contra Elloran. Apenas acusações vazias. A última testemunha, Begônia, a acusou de ter envolvimento com o desaparecimento de Salazar, e agora sabemos que ele desapareceu por conta própria. Me parece sensato acreditar que ele também tem envolvimento no roubo dos itens. Eu mesmo tenho viajado com sua filha, que vive se metendo em problemas, tendo se envolvido até com um eco do próprio Krivoc. A cada novo instante eu me pergunto se no lugar de Elloran não deveria ser julgado o Sr. Salazar Sangr’alma.

Tyler chegou no julgamento e começou a observar tudo calado. Fez um sinal para Noora de que ele talvez soubesse de alguma coisa que poderia ajudar e Tony percebeu. Em seguida, Tony notou uma criança parada que, ao ser avistada começou a correr e foi até uma criatura que usava roupas pretas. A criatura a envolveu em seu manto e desapareceu com ela.

Ao final do julgamento, o Alto-Rei Marcellus II se levantou, sacou sua espada e apoiou no ombro esquerdo de Elloran. Tyler arremessou uma adaga na espada do monarca, se aproximou e começou a falar.

– Vocês não tem provas contra ela, mas o grupo que trouxe ela pra cá tem informações assim como eu. Então, por que não fazemos uma aposta entre as guildas? A guilda que conseguir informações que provem a inocência de Elloran e apresentar antes do Julgamento da Névoa Rubra em Inférnia, vence. Caso contrário, eu duvido que as Capitais Lunares sejam capazes de se defender do ataque de um exército de guildas.

O Alto-Rei Marcellus viu todos os Mestres de Guilda se levantando um após o outro e se oferecendo para coletar provas sobre o caso de Elloran. O monarca, enfurecido, assentiu com um gesto de cabeça e voltou para sua cadeira encerrando o Julgamento de Lumius até as provas serem apresentadas.

Pelo menos por enquanto eu ainda tenho uma chance. Sara e Tyler, Noora, Letriel, Alron e Arthur. Todos eles estão aqui e me querem viva. Talvez todo o conhecimento que adquiri e me foi tirado esteja no grimório que Agatha recuperou. – pensou Elloran sendo levada ao Portal de Inférnia.

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