Os Demônios do Passado

Todos nós temos uma história. A minha história verdadeira é conhecida apenas por mim mesmo. Ainda que alguém me conheça durante toda a vida, a pessoa nunca vai sentir na pele as coisas que eu senti, experimentei e tive que lidar no meu passado. Quando se vive em uma sociedade que tem tudo contra você por causa de eventos históricos e culturas enraizadas por causa de um passado sujo, oculto, tenebroso e cheio de cicatrizes é fácil entender porque estamos onde estamos. O Semanário é um espaço pessoal para reflexão e acho que está na hora de falar sobre algo que eu evito, mas não deveria.

Eu sou um jovem adulto. No momento em que escrevo este texto no auge dos meus 24 anos e trabalho com design de jogos com foco em modelos 3D. Você me entrega o seu projeto, nós rabiscamos algumas ideias e conceitos, se necessário eu entro em contato com a minha ilustradora e fechamos um contrato. Para chegar até aqui, eu precisei de muito esforço e dedicação. O Rabiscando Mundos é algo que eu precisei de anos de estudo e experiência para começar a planejar e agora eu vivo um sonho que por muito tempo foi um pesadelo.

Se eu pudesse não entender hoje em dia o que eu entendo sobre como o racismo está impregnado em nossa sociedade, eu acredito que eu ainda teria algumas amizades do meu passado hoje em dia. Com o passar dos anos e com as experiências de vida, eu comecei a enxergar o que o mundo realmente é, como ele funciona e quais são os efeitos do racismo em na vida de um jovem inteligente e com grande potencial. Minha história de vida é longa e cheia de eventos que não cabem em um único texto, mas vamos lá.

Quando criança, eu não tinha muitos amigos próximos e tenho memória de algumas poucas pessoas que cresceram comigo até que eu mudei de escola no ensino médio. Até o término do fundamental todas as pessoas eram amigas e as mais folgadas ficavam distante dos demais ou procuravam seus próprios grupos. A convivência era tranquila como qualquer convivência entre crianças que não julgam ninguém pela aparência. O problema realmente começou quando os hormônios da puberdade falaram mais alto.

A minha adolescência foi um período de descobertas trágicas. Foi a época da minha vida que eu descobri como que as coisas realmente funcionam e que eu passei a responder as coisas de uma maneira mais direta. Eu comecei a entender o que significava ser um homem preto em uma sociedade que não quer te ver crescendo a menos que você seja bom em algum tipo de esporte, o que eu nunca fui exceto pelas artes marciais que eu pratiquei por muito tempo. É óbvio que eu nunca utilizei isso para resolver os meus problemas, mas era algo que me dava segurança para desarmar as pessoas com argumentos.

O problema de ser uma pessoa inteligente é que você percebe coisas que algumas pessoas deixam passar. Comentários do tipo “eu jamais ficaria com um neguinho” ou “aquela neguinha é toda esquisita” foram coisas que eu ouvi muito além de olhares tortos e tratamentos desrespeitosos que me fizeram reprimir uma das coisas que eu mais gostava de fazer que era conversar e conhecer pessoas novas. Era uma coisa estranha ver tudo aquilo acontecer, mas eu fico feliz que tenha passado e que não vão acontecer comigo novamente.

No mercado de trabalho as mesmas coisas aconteciam no dia a dia. Logo no primeiro exercício de adaptação ao meu estágio, meu supervisor disse que quem conseguisse cumprir o desafio ganharia uma caixa de chocolate. Isso foi uma parada muito estranha e bizarra porque eu cumpri o desafio, era o único estagiário preto e não ganhei. Parece algo pequeno, mas com o passar dos dias as coisas continuaram acontecendo da mesma maneira até que fui demitido tempos depois quando o gerente da equipe disse que se eu continuasse como eu estava eu assumiria o lugar do meu supervisor de estágio. Alguns meses após esses eventos, eu voltei a vender água na rua enquanto aguardava o resultado de um concurso público para o qual eu passei e fui trabalhar.

Os quatro anos que fiquei lá foram bons até certo ponto. Quase tive que dar entrada em um processo de assédio moral além de eu ter sido manipulado e usado como fetiche por uma pessoa com a qual eu não tenho mais contato. O que aconteceu? Bom, meu chefe tinha medo de perder o cargo eletivo dele para mim e dizia que eu não trabalhava. Uma dica: se você trabalha com informática e está você trabalhando muito, você está trabalhando errado. Ele não entendia isso e eu não entendia outra coisa.

A questão do fetiche foi estranha e boa demais para ser verdade. Eu já estava com a cabeça abalada o bastante por causa do processo que eu quase abri com a ajuda de um colega de trabalho que percebeu em poucos dias o que era trabalhar naquele setor. A pessoa se aproximou de uma forma muito sutil e eu fui levado a entrar em um ciclo de dependência emocional que me arrastou por mais de um ano. Quando eu dei um fim de vez nisso e voltei para minha cidade natal, eu voltei a ser o homem que eu jamais deveria ter reprimido durante anos da minha vida neste mundo.

Eu tenho os meus demônios e preciso lidar com eles diariamente. Você deve ter os seus e precisa fazer o mesmo que eu para continuar seguindo em frente. Muito do que acontece em nossas vidas depende das escolhas que fazemos e dos caminhos que trilhamos para chegar onde desejamos chegar. Adversidades vão aparecer, pessoas preconceituosas com qualquer coisa também aparecerão e você precisará lidar com isso da melhor forma possível para que evite problemas graves. Você pode lutar contra seus demônios e aumentar sua luz para afastá-los de você. A escolha sobre o que fazer será sua no fim.

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