O Despertar de Eliseu

Oi. Isso aqui tá gravando, né não? É, eu acho que sim. A luzinha vermelha tá acesa, a bateria eu acho que vai dar conta e por sorte a minha irmã não tá aqui no estúdio agora. Ela saiu mais cedo com uma bonitona que estava com roupas de couro e com cara de poucos amigos. Sei lá o que raios ela faz com esses novos amigos dela, mas isso não é assunto pra agora, manja?

Então, se liga porque eu vou contar como foi a viagem mais doida da minha vida e não tem nada a ver com a vida de drogado que eu levava junto com a minha irmã até eu ter uma overdose e meu pai me mandar para uma clínica de reabilitação no Rio de Janeiro enquanto mentia pra todo mundo que eu estava indo estudar em período integral. Esse papo da minha adolescência fica pra outra hora porque agora eu despertei e isso é muito maneiro.

Cara, se liga: eu estava em uma clínica de reabilitação porque eu tive problemas com drogas e tal. Aí eu fiquei alguns anos lá e meio que perdi o começo da minha vida adulta por causa dos tratamentos constantes, das recaídas e da abstinência que eu tive por alguns muitos diversos vários anos. Ah, sim, eu junto muitas palavras com o mesmo significado, mas desapega disso e continua prestando atenção, valeu? Belezinha. Continuando, eu estava lá e de repente alguém entrou no meu quarto. Era o merdinha do Thiago.

Thiago, o merdinha, é o ex-namorado da minha irmã Elisa. Um dos muitos por sinal. Ele estava com as roupas sujas e fedendo a esgoto. Nada muito diferente do que eu me lembrava dele. Aí o que rolou foi o seguinte: ele entrou no meu quarto, injetou alguma coisa no meu soro e pronto… eu tive outra overdose e todo o tratamento que eu estava fazendo para me recuperar foi pro c******. Algumas horas depois, minha irmã, aquela doida de cabelo colorido que estava desaparecida por duas semanas depois de ter ido para o Rock in Rio, apareceu e eu estava mal demais para falar e foi uma das poucas vezes que ela pegou leve comigo.

Ela estava com roupas comuns para não chamar tanta atenção. Calça jeans de cintura alta e extremamente justas. Como ela respira com aquilo? Sei lá. Enfim, ela também estava com uma blusa branca e uma jaquetinha de couro além dos coturnos que ela cuida desde que éramos mais jovens. Aí ela falou comigo, ficou bolada, eu falei do Thiago, ela ficou mais bolada, aí ela foi embora, eu fiquei bolado, depois de um tempo os enfermeiros entraram para recomeçar o tratamento e eu continuava como? Exatamente, sob efeito da droga que injetaram em mim. Que foi? Eu não fico bolado por muito tempo, mas o que aconteceu depois me deixou boladão.

Na madrugada daquela noite eu achei que estava sonhando com uma parada bizarra. Era um lugar tempestuoso, cheio dos raios e trovões além de ventar muito também. Eu nunca tinha visto nada como aquilo nem mesmo quando experimentei LSD, sacas? Eu achei que era alguma viagem muito braba, mas eu estava em um local real. Apenas os trovões iluminavam de vez em quando e ao longe eu vi uma torre enorme. Estava reta demais para ser a de Torre de Pizza e arruinada demais para ser algum castelo bretão. Como eu não tinha merda nenhuma pra fazer, eu segui caminho até a torre.

Quando eu cheguei lá, tinham uns negócios muito estranhos. Mais estranhos do que aquela coisa meio gosmenta e pastosa que estava sempre na cama da Lizzy e… pensando bem, eu acho que sei o que é porque ela e o Thiago faziam uns barulhos bem estranhos. Enfim, tinha estas paradas lá: velas, livros antigos, algumas coisas que pareciam runas nórdicas, uns desenhos que pareciam círculos alquímicos e, nas paredes, haviam nomes esquisitos iguais aqueles que a gente inventa pra jogar online.

A parada bizarra foi que isso aconteceu em uma questão de horas pra mim e o pior foi que um dos nomes começou a descolar da parede e voou na minha boca. Tinha um gosto estranho e amargo, mas foi ficando mais de boa com o tempo e eu passei a entender o que era aquilo. O livro era chamado de grimório, a torre era feita de tijolos de marfim. Eu já não era mais o que eu fui um dia e isso deixou tudo mais interessante. Eu havia despertado.

Pra mim, aquilo foi uma brisa doida, mas quando eu acordei no quarto da clínica sem os aparelhos, com a barba por fazer e o cabelo levemente desgrenhado, eu olhei pra situação toda, saí da maca, peguei o telefone do quarto e falei pra me tirarem de lá porque eu estava bem. Aí as pessoas ficam assustadas e eu insisti nisso e me prenderam na cama e eu me soltei da cama atravessando as amarras. Aí, por algum motivo, um dos médicos pediu para me examinar e me deu uma carta de recomendação para a Universidade Estadual de Amaya. Nos exames, assim como no meu sangue, eu estava limpo e sem qualquer sequela das drogas que eu havia usado.

O tempo é algo que não existe, sacas? A realidade é algo que tenta se manter rígida para que as coisas sigam uma ordem harmônica assim como a música. No entanto, eu sendo o que eu sou e podendo manipular a realidade de um jeito sutil, eu posso fazer coisas que mantém realidade estável igual ao dia que eu fiz com que o disparo de uma pistola não fizesse barulho por meio de um túnel de vácuo entre o alvo e o cano da arma.

Minha voz já está normal de novo. Foi f***. Efeito do Paradoxo. Papo pra outra hora porque a cabelo de arco-íris tá chegando pra gravar um single e eu sou estagiário da dona da gravadora que desapareceu.

– Aí, Lizzy! Cadê a Rebeca? Quero meu dinheiro!

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