Os Pecados dos Necrossangue

Quando jovem eu tinha orgulho de ser um Necrossangue de Inférnia. Como o mais velho de quatro irmãos, eu deveria ser o exemplo para cada um deles porque eu sou o primeiro na linha de sucessão da família. Nossa atual matriarca é minha mãe, Grã Senhora Miranda Necrossangue do Pecado do Orgulho. Ela adoraria que minha irmã fosse como ela, mas a pequena birrenta não é. Por isso eu, Barão Tomas Necrossangue do Pecado da Ganância, sou aquele que a matriarca cuida como seu protegido. Não é nada fácil manter as aparências, mas eu o faço por respeito a ela.

O que poucos sabem é o que tornou minha família o que ela é hoje. Somos uma das casas nobres da Trindade Gerontocrática Infernal das Terras Minguantes e isso deveria ser um motivo de orgulho que, por sua vez, era o pecado daquele que morreu por um erro que eu mesmo cometi. Sinto falta de Jônatas e da sua postura prepotente. Naquela noite fatídica quando meu irmão foi morto por um dos capitães da Armada Macabra, minha irmã foi declarada traidora e agora vive como uma fugitiva. Eu me culpo por perdê-los e farei de tudo para que ela assuma novamente o que lhe pertence por direito de herdeira.

Agora sou o responsável pela tutela de Dante, meu irmão mais novo que também despertou o Pecado da Ira por causa daquela noite. Ele não tinha idade para ver o que tentaram fazer com nossa caçula e agora, como o responsável pela guarda pessoal de nossa família, ele se tornou paranoico ao ponto de dobrar a segurança e contratar apenas guerreiros capazes de manipular a Essência da Lua Minguante. Isso é deveras perigoso e imprudente, mas não tanto quanto o que nosso ancestral fez para conseguir os poderes de nossa linhagem.

No passado, Inférnia era uma cidade sagrada conhecida como Celéstia, a Fortaleza dos Magiocratas. Ela recebeu este nome porque o panteão é formado por seres que dominam por completo algum aspecto da magia arcana e, por meio dela, tornaram-se divindades. Este local cheio de magma já foi uma terra com vastas planícies e povoada por celestiais que peregrinavam pelo deserto abençoando os devotos. Não havia limites para os poderes divinos dos habitantes virtuosos de Celéstia. Os registros históricos relatam um evento que mudou tudo do dia para a noite.

Um herege de Celéstia de nome Vilgan, o Desgraçado, recebeu esse título por ter sido o primeiro Aasimar a perder a graça dos deuses. Junto com ele, outros seis Aasimar caíram. Ramael, Turiel, Nina, Heladra, Sagoria e Ébris. Sob a liderança de Vilgan, eles fundaram um culto de adoração a demônios dos planos negativos e cada um deles ficou responsável por uma tarefa a fim de cumprirem pactos com seus patronos.

Os Aasimar Caídos deveriam cometer um único pecado em sua plenitude. Ramael, em um momento de fúria, aniquilou diversos vilarejos de pescadores e despertou o Pecado da Ira. Turiel roubou tudo o que conseguiu até daqueles que não tinham nada e abraçou sua Ganância. Nina, por sua vez, fundou um culto em sua adoração ao ponto de inflar o seu ego e tornar-se a manifestação do Orgulho. Heladra também era adorada e venerada pelos seus desejos carnais e a Luxúria foi o seu pecado. Sagoria se sentiu incapaz de cumprir tais coisas então matava os alvos de Ramael, seduzia amantes de Heladra, roubava tesouros de Turiel despertando desta maneira o Pecado da Inveja. Ébris, por sua vez, era um glutão que roubava comida até mesmo dos animais de fazendas para se alimentar e a Gula o consumiu por inteiro. Vilgan não se dava ao trabalho de fazer o que seus aliados faziam, então ele os influenciava a fazer as coisas por ele ao ponto de ser amaldiçoado com a Preguiça. Assim, as sete famílias nobres surgiram em Inférnia.

No entanto, uma oitava figura, devota do Dracolich Krivoc, apareceu diante dos Caídos e lhes ofereceu poderes ainda maiores do que o que eles possuíam. Tudo o que precisariam fazer era um pacto de sangue com ela e renderem-se completamente à sua natureza pecaminosa. Tentados pela sede de poder, os sete aceitaram e firmaram um acordo profano. A figura era ninguém menos que Grão Ancião Dahaka Necrossangue, o mais poderoso bruxo que já caminhou por Aylin e também o primeiro Tiefling da linhagem Necrossangue. Sua aparência era comum como a de um humano e, por este motivo, um dos patifes da região se declara o primeiro dentre todos os Tieflings de Inférnia.

Por causa de Dahaka, Celéstia perdeu suas virtudes e se tornou um poço de pecados e profanações. Os celestiais e seus herdeiros que aqui viviam desapareceram sem deixar rastros jurando retornar quando alguma criatura se tornasse digna de abrir os Portões Celestiais para então trazer novamente o equilíbrio ao nosso mundo.

Se passaram quase cinco anos desde que minha irmã fugiu e que meu irmão foi assassinado. Eu não tenho orgulho algum de ter sido o responsável por acabar com todos os recursos do maldito que me fez perder minha família em uma noite de comemoração e alegria. Pelo que sei, ele ainda está vivo e seu juramento foi quebrado. Tudo o que lhe resta agora é vagar em busca da ajuda daqueles que ele mesmo condenou a uma existência tão miserável quanto a que ele vive atualmente. Tive que matar com as minhas próprias mãos a família dele também.

Meu pecado original é a Ganância por recursos e influência. Eu sou o responsável pelos negócios da família sejam eles comuns ou escusos. Desde que Nyx fugiu, eu coloquei pessoas de olho nela e eliminei ameaças que ela não conseguiria lidar sozinha. Deixei a Ira me dominar para vingar meus irmãos sem manchar o nome dos Necrossangue, a família responsável por corromper a sagrada e santificada Celéstia, a Fortaleza Magiocrata.

Um milagre aconteceu há quatro anos. Ullane Khales, minha esposa, deu a luz a nossa primogênita que nasceu com a Virtude da Generosidade. Glória Necrossangue é nossa esperança de redenção.

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