O Filho do Inferno

A minha história começou a muito mais tempo do que eu consigo me lembrar. Eu não tive escolha sobre a minha natureza. Tudo o que aconteceu comigo, em parte, foi culpa de um desejo puro e inocente de minha mãe. Quanto ao meu pai, ele desejava a mesma coisa que ela e não sabia mais o que fazer para tornar o maior sonho dela realidade. Eu já não me lembro mais dos seus nomes e acho que isso torna as coisas mais fáceis. Você deve estar se perguntando quais coisas são essas, não é mesmo? Eu vou te contar. Tudo.

Eles eram comerciantes nômades. Meu pai era um vendedor de especiarias e minha mãe uma cartomante habilidosa. A vida deles se resumia a viajar pelo que chamam hoje de Deserto Aracnorrubro e boa parte das rotas comerciais do deserto foram mapeadas por eles dois para toda a tribo. Eles viviam felizes, mas minha mãe se sentia culpada por não poder gerar vida. Meu pai sempre a amou incondicionalmente e nada poderia mudar o amor dele por minha mãe. Assim era a vida deles dois. Simples, cheia de boas histórias e algumas aventuras fugindo de saqueadores. Sinto que eles foram corajosos.

A coragem dos meus pais era grande, mas creio que o desejo cego de minha mãe por ter um filho deu início a um ciclo de profanação. Ela e meu pai não tinham consciência disso quando fizeram o que fizeram. Foi o ponto de virada para cada um de nós.

Meus progenitores montaram seu acampamento perto de um vilarejo na Costa Sangrenta que foi devastado durante a Guerra das Feras. Eles arrumaram tudo da maneira mais impecável possível porque o clero de Celéstia visitaria a região para abençoar todos aqueles que estivessem no caminho de sua peregrinação. Tentados pelo desejo de conseguir um milagre, eles vestiram suas melhores roupas, prepararam as melhores especiarias e trocaram os tecidos da cabana de cartomante de minha mãe. Nada poderia dar errado.

Como era o costume, todo o clero de Celéstia era composto pelos Aasimar, serem agraciados com uma natureza celestial e os seres mais próximos dos deuses. Toda a comitiva passou pelo acampamento e seguiu para a cidade sem dar atenção aos meus pais e aos seus amigos. Muitos deles compreenderam que parte do que eles faziam era considerado profanação, mas meus pais não tinham culpa e eles, frustrados, cometeram uma blasfêmia imperdoável.

Minha mãe cortou uma de suas mãos e desenhou runas de invocação com o próprio sangue enquanto meu pai foi tomado por seus instintos mais ferais perdendo o próprio equilíbrio e cometendo seis dos sete pecados. Quando cogitou o pecado da luxúria, ele hesitou. Ele jamais seria capaz de trair minha mãe. Naquela noite, ele fez curativos na mão dela e a colocou para dormir enquanto ele limpou tudo o que estava sujo pelo sangue dela. O desespero havia tomado conta de ambos e isso fez com que a culpa pesasse sobre os seus ombros. No outro dia tudo mudou.

Ainda fazendo o trabalho deles como todos os dias de suas vidas desde que se casaram, meus pais passaram o dia todo vendendo e lendo a sorte das pessoas como nunca fizeram anteriormente. Talvez aquele tenha sido o dia mais lucrativo da vida dos dois e eles mal conseguiam compreender o motivo. Eles mal deram conta de atender todos os clientes. Quando anoiteceu, a quantidade de dinheiro que eles fizeram era o suficiente para que eles conseguissem sobreviver por algumas luas sem preocupação. Foi quando ele apareceu.

Um homem de postura austera adentrou a cabana de meus pais e desejava saber qual era sua sorte. Os olhos frios e o sorriso arrogante abalaram as estruturas de minha mãe e intimidou meu pai que, por um instante, sentiu ciúmes. Seria o último cliente do dia e eles aceitaram. Então o homem se sentou diante de minha mãe e meu pai ficou ao lado dela enquanto ela preparava as coisas para ler a sorte do tal homem misterioso. Ele fez uma proposta tentadora ao ponto dela tornar-se irrecusável.

– Adivinhe a minha sorte, mulher. Caso realmente exista talento em ti, eu concederei um desejo para você.

– Qualquer desejo, meu senhor? – questionou minha mãe.

– Sim… Concederei aquilo que seu coração desejar.

– E o que garante que está dizendo a verdade, milorde? – indagou meu pai.

– Sou apenas um benfeitor que viaja pelo deserto. Já ajudei muitas pessoas e quero lhes oferecer meus serviços.

Ela leu a sorte dele. Ele sorriu e foi embora.

Mais tarde naquela mesma noite, meu pai cometeu o último dos pecados. Ele não traiu minha mãe, mas a fez ir até o limite em seus atos de luxúria desenfreada. Algumas luas depois, ela anunciou a todos que estava grávida e fizeram festa por alguns dias. Mais algumas luas mais tarde eu nasci. Eu era uma criança comum, mas conforme eu fui crescendo, minha verdadeira aparência começou a se manifestar. Pele escamosa e avermelhada, eu não sentia dor ao entrar em contato com o fogo, vozes sussurrando nos meus ouvidos durante o sono e enxofre. Eu exalava enxofre ao ficar irritado.

Certa noite, voltado para casa, eu encontrei meus pais mortos na cabana deles. Tentei pedir ajuda, mas todos me abandonaram porque achavam que eu era amaldiçoado. Desesperado, eu tentei fugir, mas um homem me abordou e disse que me ajudaria a crescer e que me tornaria um homem forte.

Desde então eu sou isso que eu sou. Um mercenário de sangue frio que faz o que achar necessário para conquistar aquilo que deseja. Quanto aquele homem… ele foi o responsável pela morte dos meus pais e eu descobri isso da pior forma possível: ele me contou depois de me espancar quase até a morte. Séculos depois, toda Celéstia foi corrompida por causa da devoção daquele maldito ao Dracolich Krivoc. O que eu faço é desprezível, mas eu sou muito bom nisso. Klaus Hellingson, o Filho do Inferno, este que vos fala, tem um único objetivo: voltar a ser humano.

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