A ascensão de Lilyth

Este é um desabafo de uma mulher que viveu com medo por décadas. Quando jovem e inocente, eu sonhava em ver o mundo todo atravessando as gerações. A imortalidade para mim sempre foi um desejo obscuro assim como as causas mais ativistas do mundo. Aos meus trinta e quatro anos de idade, eu conheci um homem chamado Ernesto que me prometeu uma eternidade sombria por meio de um culto. Ele dizia que, quando eu estivesse preparada, eu seria capaz de ter os poderes de um ancião assim como os dele. Esses foram bons tempos em Amaya.

Alguns meses depois eu completara meu trigésimo quinto aniversário. Meus entes comemoraram comigo durante o dia todo e foi o um dos dias mais alegres que eu tive durante minha vida mortal. Bebemos, comemos, dançamos e fizemos tudo o que tivemos vontade de fazer. Eu nunca fui do tipo que se prende a estereótipos, mas sempre adorei estar em posição de poder e protegida pelos meus recursos. No entanto, não havia ninguém capaz de me proteger do destino que me aguardava naquela maldita cripta. Não me entenda mal porque, neste caso, maldição é um elogio.

Ernesto e eu fomos na mesma noite do meu aniversário até a cripta no cemitério de Amaya que, naquela época, ficava ao lado da catedral. Aquela casa de orações sabia muitas das minhas confissões e guardava meus pecados mais íntimos. Ela estava vazia e iluminada apenas pela luz da lua quando entramos. Ernesto me mostrou uma passagem que nos revelou uma escadaria que, por sua vez, chegava na maldita cripta no subsolo do cemitério. Lá repousava algo que ele me disse ser um ancestral Lasombra. Pessoas encapuzadas surgiram do breu e começaram a entoar cânticos. Lembro-me de uma dor no pescoço seguida de êxtase. Minha eternidade havia começado. Lilian estava morta.

Décadas mais tarde, eu e outros acólitos tivemos a permissão de criar nossa própria linhagem por meio do abraço de novos membros. Tínhamos a obrigação e o dever de ensiná-los tudo o que havíamos aprendido. Ernesto foi um bom mentor para mim e deveras atencioso sempre que eu precisava me alimentar. O que ele não esperava era algo extremamente óbvio: uma vez que eu tivesse uma cria sob minha tutela, ele seria minha mais nova fonte de poder. Minha oportunidade apareceu quando eu estava no Rio de Janeiro após a tomada de Amaya pela Revolução Anarquista de Lucca.

Ernesto refugiou dois membros jovens da Camarilla. Kamili, uma Ventrue dona de algumas hospedarias que hoje em dia são chamadas de hotéis, e Michel, um Toreador que vivia cercado de mulheres por onde quer que passava fazendo suas apresentações teatrais durante suas viagens pelo país. Ambos começaram a se relacionar e ele, ingênuo, dançou comigo logo no primeiro dia de sua estadia no Rio. O que ela, Kamili, não esperava, era que o romance que surgiu entre ambos foi algo que eu utilizei como moeda de troca por meio de meus dotes sobrenaturais: um gatilho para Michel ser um Toreador.

Nas noites seguintes eu soube que Michel e Kamili estavam juntos como um casal feliz. Ela estava sorridente e ele também. O que ambos não sabiam era que eu precisava disso para manter Ernesto distraído. Aquela obsessão de meu mentor por Kamili e sua influência era nojenta. Então eu o abordei em seus aposentos. Discutimos um pouco e logo tudo aconteceu. Michel e Kamili nos viram, o Toreador se afastou conforme a minha Dominação, Kamili permaneceu estática enquanto eu cometia uma Diablerie e então o gatilho funcionou: “Quando eu terminar de me alimentar de Ernesto, me empale e culpe sua amiga Kamili pelo crime inaceitável contra a Camarilla.

Mais algumas décadas se passaram e ambos, Kamili e Michel voltaram para Amaya assumindo as cadeiras que um dia pertenceram a Hélio e Sara que, atualmente, é a Príncipe da Camarilla nesta cidade. Com a inquisição atrás de todos e algumas crias atrás de mim, me vi obrigada a negociar com Kamili nomes de pessoas influentes na Camarilla porque eu precisava de proteção, mas ela não cumpriu com sua parte do acordo. Então eu apelei para uma mulher mais desesperada, Isabela, que me pediu ajuda e a dominei para isso, entreguei um dossiê a um dos líderes da inquisição na cidade, um tal de Érico. Tudo em vão. Foi então que me veio uma ideia brilhante.

Magnus, um Banu Haqim, tem um pequeno grupo de cainitas que age de forma independente. Eu estava sozinha e comecei a abraçar novos Lasombra enquanto criava laços com as pessoas que frequentam e investem em minha boate. Se eu não ensinar nada sobre o Culto do Sabá, minhas crias não se alimentariam de mim. Os ensinei como realizar o abraço e, para minha surpresa, alguns se organizaram em coteries e outros se tornaram Sangue-Fraco, vampiros diurnos.

Noite passada, Sara foi atacada e alguns cainitas, tanto da Camarilla quanto da Anarquia encontraram sua morte final. Minha Autarquia permanece intacta uma vez que grande parte dela é composta pelos Sangue-Fraco que garantem a minha segurança durante meu repouso amaldiçoado. Eu nunca acreditei que eu ficaria tão tranquila e segura após quase três séculos de manipulações, assassinatos, crimes e acordos velados. Kamili e Michel vivem tentando matar um ao outro, Ernesto e eu nos tornamos um, tenho minhas próprias defesas de nenhuma das minhas crias ousa tramar algo contra mim. Enquanto eles brigam, eu permaneço segura e bastante reclusa.

Como eu disse, eu sempre gostei de ter amigos, recursos e segurança. Demorei muito tempo para isso e agora, para preservar as minhas conquistas, tudo o que eu preciso fazer é administrar minha boate, manter um bom relacionamento com as minhas crias, eliminar os Sangue-Fraco que encontraram os Hecata e a Camarilla e, por fim, continuar agindo nas sombras como uma boa criatura da noite. Meus problemas estão resolvidos, minha mais recente linhagem me adora. É uma pena que alguns tenham que morrer. Todavia é algo necessário. Alguns diriam que é crueldade, mas só quero manter minha tão aguardada… ascensão.

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