Laços da inocência

Eu havia perdido a paixão pela vida. As pessoas se tornaram tediosas, as festas não eram mais as mesmas e a arte… bem, a arte sempre me acompanhou, mas não era mais a mesma coisa também. Acreditava que minhas noites jamais seriam as mesmas até que uma família deu a luz a uma criança que mudou minha amaldiçoada eternidade. Essa criança me revelou a beleza da inocência e meu sangue começou a borbulhar compulsivamente. Obcecada imaginando como ela seria quando atingisse a maioridade, eu confesso que tudo o que aconteceu me surpreendeu positivamente desde o momento em que ela se tornou minha pupila.

As noites do Rio de Janeiro sempre foram belíssimas. Eu aproveitava a vista de Copacabana para lecionar balé para as minhas queridas aprendizes. Sempre detestei o termo aluno porque acredito que todos possuem sua própria luz ainda que a minha tenha se perdido décadas atrás. Naquela noite, uma mulher entrou junto com uma garotinha tímida que se escondia atrás de seu vestido. Pedi para que uma das minhas aprendizes mais experientes continuasse a aula enquanto eu fui falar com as visitantes.

– Boa noite! Sou a Professora Isabela. Sejam muito bem-vindas ao meu estúdio.

– Boa noite, Senhorita Isabela. Eu sou Flávia e gostaria muito de matricular minha garotinha. Acredito que será algo maravilhoso ver minha menina se tornar uma bailarina e quanto antes ela começar, melhor.

A mãe se abaixou para olhar sua filha nos olhos. A menina tinha, e ainda tem, uma personalidade forte e não parecia confortável com o que Flávia estava fazendo. Esta foi a minha primeira conversa com a pessoa que se tornaria a ninfa que inspira minhas criações a mais de oitenta anos. Usei de minhas capacidades únicas graças a minha maldição, pedi para que Flávia se levantasse e eu mesma falei com a garotinha que me olhou fascinada enquanto seus olhos verdes brilhavam.

– Oi, mocinha! Qual é o seu nome? – falei olhando nos belos olhos da pequena.

– Oi… meu nome é… meu nome é Melissa! – ela respondeu enquanto sorria timidamente.

– Você gosta de dançar, Melissa?

A garota se inclinou para olhar as alunas atrás de mim e respondeu balançando a cabeça positivamente. Ela estava me olhando com interesse e se animou rápido ao ver as outras meninas de sua idade dançando. Flávia, sua mãe, também estava interessada e foi então que eu me levantei e fiz uma proposta a elas.

– Sua menina é uma graça, Senhora Flávia. Se quiserem, podem assistir a aula de hoje.

– Seria um prazer, Professora! Não é mesmo, Melissa?

– Sim, mamãe! Olha aquela menina ali. Ela é muito bonita.

Eu as conduzi aos assentos que usávamos para apresentações e avaliações. Ambas ficaram atentas e Flávia sorria de orgulho ao ver Melissa, sua garotinha, tentando copiar alguns movimentos de minhas outras estudantes. De certo modo, ela tinha expectativas quanto a filha assim como toda mãe atenciosa tem. O que Melissa não esperava era que os anos seguintes revelariam sensações estranhas para a sociedade conservadora daquela época.

Cerca de doze anos após meu primeiro contato com Melissa, ela se tornou uma jovem formosa de traços delicados. Os anos de balé forjaram uma musculatura firme, atlética e que causava inveja a algumas colegas que acreditavam que eu estava sendo mais atenciosa com Melissa. De fato, elas não estavam erradas. Ela não tinha noção de qual era minha verdadeira natureza, mas a cada noite eu sentia que a luz e a paixão pela vida mortal crescia dentro de mim. Eu estava tentada a sentir os lábios de minha pupila. Entretanto, como eu poderia demonstrar isso sem quebrar as… regras?

Certa noite, quando Melissa estava no auge de seus dezessete anos, eu havia encerrado a aula e as minhas aprendizes estavam deixando o estúdio. Ouvi uma voz pigarreando atrás de mim e quando me virei, lá estava ela com dificuldades para fechar seu espartilho. Sempre recatada, ela me olhou e um arrepio subiu pela minha espinha. Isso não acontecia a muito tempo nem mesmo entre meu rebanho. Eu então me aproximei de Melissa e, sem que ela tivesse tempo de pedir, comecei a ajudá-la a terminar de vestir seus trajes. Ela parecia um pouco perturbada naquela noite. Então a indaguei.

– Melissa, você não me parece muito bem. Está com problemas em casa?

– Professora, eu… eu tenho me sentido muito diferente das outras meninas a algum tempo.

– Isso é normal, querida! Vocês são jovens e muitas de vocês terão experiências novas nesta idade. Isso é natural. Todavia, o que te faz se sentir assim?

Ainda abalada, ela começou apertar o tecido de seu vestido, me olhou e, por um instante, parecia um pouco mais aberta do que de costume.

– Eu não sei se eu posso cumprir tudo o que minha mãe espera de mim. Já faz algum tempo que eu percebi que rapazes não me chamam tanta atenção quanto chamam a atenção das outras garotas e meus pais estão arranjando um casamento com um advogado. Isso não me parece justo e eu não pretendo me casar. – ela se expressou com pesar.

– O que você quer dizer com isso, Melissa? Ninguém vai te julgar aqui. Estamos sozinhas.

O nervosismo da jovem estava começando a me contagiar. Ainda que eu tentasse compreender, ela não estava sendo direta em suas palavras. Então me vi obrigada a falar com ela como fiz quando ela era apenas uma criança. Ela continuou sentada em um banco, eu me abaixei para olhar em seus olhos e perguntei da forma mais direta que eu consegui.

– Melissa, seja sincera comigo. O que você realmente está tentando me dizer, querida?

Quando a garota estava começando a falar, alguém bateu à porta. Nós nos afastamos e um homem de terno, cartola e muito bem-apessoado apareceu ao lado de uma mulher de vestido branco também de chapéu. Ambos de pela clara, mas ela loura e ele de cabelos castanho escuro. Os dois se entreolharam e ele falou.

– Isabela, você não se esqueceu do compromisso que temos com o Conde esta noite, não é mesmo? – disse ele com calma enquanto direcionava o olhar para Melissa. – E quem é esta jovem?

– Senhor Michel, me perdoe. Eu já estava de saída. Esta é Melissa, uma das minhas mais promissoras aprendizes. Creio que eu já falei dela para o senhor e para a Senhorita Kamili. Como vão seus negócios?

– Vão bem. Obrigada! Não quero me atrasar. Podemos ir?

Todos se apressaram para deixar o lugar e eu ainda estava curiosa quanto ao que se passava na cabeça de Melissa. Ela não era mais a mesma desde que se envolveu em uma briga com um garoto.

Algum tempo depois, cerca de alguns meses após aquela noite na qual fomos interrompidas, Melissa deixou de frequentar as aulas. Era comum que professores, mestres e tutores visitassem seus aprendizes para saber o motivo de suas ausências. Fui até a residência da família de Melissa e Flávia, bastante cansada, com traços mais enrugados por conta da idade, me recepcionou pessoalmente.

– Senhorita Isabela, fico impressionada como você não envelheceu um único dia nos últimos anos.

– Flávia, querida, um dia desses eu te conto meu segredo, mas hoje eu estou aqui para saber o que houve com Melissa. Ela não tem frequentado as aulas e isso tem preocupado a todas nós. Eu poderia falar com ela?

– É claro! Te levo até os aposentos dela.

Flávia me guiou até o quarto da jovem que desaparecera das aulas. A residência nobre em Botafogo era belíssima e parecia um palacete francês. Chegando próximo ao quarto, Flávia me deixou no corredor e desceu para terminar alguns preparativos para o aniversário de sua filha que aconteceria na próxima noite. Eu bati à porta, não tive resposta e então entrei sem ser convidada. Por um instante, minha primeira obsessão por Melissa retornou.

Ela estava fazendo algumas anotações em uma espécie de diário. Alguns vidros da sua janela eram rubros como as pétalas de cravo. Ela estava tranquila, mas ao notar minha presença, a fonte de minhas inspirações fechou seu semblante.

– Vá embora!

– Melissa, eu vim saber o que houve contigo. Por que não tem mais frequentado o estúdio?

– Eu disse para ir embora, Isabela…

– Você é uma das melhores aprendizes. Eu não entendo o que te fez…

Em um movimento abrupto e rápido, Melissa se levantou furiosa. Olhos esmeralda estavam cerrados me encarando com a ira da maldição da Ralé que eu evito ter contato. Então ela impôs sua voz e subitamente me senti intimidada pela jovem. Os traços delicados da criança que eu vi crescer estavam se tornado mais brutos e ferais ao passo que a destreza de seu caminhar estava muito além da capacidade de uma bailarina qualquer. Os movimentos precisos a cada passo que ela dava em minha direção demonstravam que ela tinha habilidades até então desconhecidas por mim.

– Isabela, você não é quem diz ser… nem mesmo sente o que diz sentir! Você me olha diferente do modo que olha às outras aprendizes, cobra mais de meus esforços do que eu seria capaz de entregar, toca meu corpo com malícia e tem a ousadia de me questionar o que eu sinto enquanto me ajuda a fechar meu espartilho.

– É natural dar atenção para aquelas que mais se destacam…

– Não me interrompa novamente, Isabela! – disse ela enquanto me colocava, literalmente, contra a parede. – Você não aceita compromissos durante o dia, você sempre pede para que outras pessoas ajudem as alunas que se machucam e sangram durante as aulas, sem contar todas as vezes que você me olha de forma doentia como se fosse arrancar a carne de meus ossos. O que é você?

Ela estava feroz, intensa e toda aquela timidez fora transformada em uma espécie de raiva, mas não de mim ou de si mesma. Era um tipo de raiva diferente. Uma raiva quente. Uma raiva apaixonada. Aquela situação fez com que eu me sentisse viva de uma forma que eu não sentia até então. Dizer a verdade a ela seria doloroso, mas se ela continuasse assim, descobriria da melhor maneira possível.

– Eu sou a pessoa que se inspira em seus movimentos. Sou a artista que não era capaz de compreender mais a beleza na vida até conhecer uma musa esculpida por uma divindade. Sou a cantora que perde a voz ao ver a delicadeza de seus passos. Na verdade, sou alguém que acompanhou seu crescimento enquanto descobria o que realmente significa amar.

– V-você… o que você disse?! – indagou Melissa enquanto ficava ainda mais confusa. – Isso não é certo. Eu sou amaldiçoada? Eu não posso sentir isso por alguém igual a mim… Não é certo. O que… o que você fez comigo, bruxa?

– Eu não fiz nada, Melissa… eu sinto o mesmo que você, mas você não tinha idade para compreender… e agora tem.

– C-como assim? Isso não está certo. Você é minha professora… você se apavora ao ver sangue, não aceita nossos convites para o café da tarde e você não envelhece. Seja lá o que você for, diga-me o que fez com Isabela! – ela disse isso enquanto desembainhava um punhal para me ferir.

Naquele momento eu não tive escolha e pensei: “Michel, me perdoe…”. E foi então que me vi obrigada a quebrar a máscara ao badalar da meia-noite. Eu desarmei Melissa que, apavorada tentou sair do quarto, mas me movi até a porta e a joguei na cama.

– Melissa, eu redescobri a vida e o amor enquanto te vi crescer e se tornar uma musa. O que realmente não é certo é viver uma vida na qual existam arrependimentos, minha Lua Escarlate.

– Isabela… eu te…

Eu não dei tempo para que ela terminasse, pois meus instintos falaram mais alto. Naquela noite, ela descobriu sua verdadeira natureza e eu revelei a minha. Ela era uma jovem que ansiava por mais do que uma única vida poderia oferecer. Eu tinha a eternidade que os mecenas sonhavam alcançar. Nossas silhuetas iluminadas pela luz argêntea da lua deu início a vida que temos desde então. Nunca existiram máscaras entre nós.

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