A Batalha da Costa Borrasca

Rugidos de trovões estouram confundindo os exércitos em alto-mar. Os capitães gritam ordens enquanto os marinheiros as seguem da melhor forma que podem em meio a uma tempestade que não se sabe ao certo qual a origem. Os disparos estridentes dos canhões dos navios não possuem uma mira precisa por conta do movimento brusco das ondas. Ainda que alguns conjuradores consigam iluminar parte do convés, não é o suficiente. De um lado, estão os exércitos das Grandes Anciãs Lunares, as cinco grandes capitais de Aylin. Em contrapartida, as frotas de Krivoc permanecem imponentes lutando para alcançar a Costa Borrasca tentando subjugar seus adversários.

Cada capital elegeu um campeão para liderar suas tropas. Neste confronto, a Campeã Mingurante portava as Aqua Ineferos, espadas rúnicas elementais forjadas pelos anões de Tempestrom. Diante de seus olhos, os mortos-vivos que conduziam os navios não paravam de atirar contra sua embarcação. Ambas as tropas estavam em pé de igualdade. A batalha parecia interminável.

– Almirante! O que faremos? Eles são muitos e nossos marujos estão começando a se exaurir.

– Eu nunca achei que diria isso, mas vamos precisar da ajuda da Filha das Tormentas…

A Campeã Minguante tinha um histórico ruim com a Filha das Tormentas por causa da sua relação com o C.O.V.I.L., mas ela seria a melhor opção para ganhar alguma vantagem no confronto. Com Baruk longe defendendo o Arquipélago de Baha, não havia outra forma. Então ela reúne a essência ao seu redor, entoa um encantamento e tenta se comunicar com a Filha das Tormentas.

– Eu sei que nosso histórico é conturbado, mas agora temos um inimigo em comum. Estamos perdendo cada vez mais homens. Liandra, nós precisamos de reforços.

Uma voz doce como a voz do mais puro ser celeste começa a cantarolar. O caos da batalha diminui ao passo que uma criatura de proporções colossais se aproxima ao som de trovões. Raios atingem o oceano e a luz cega os marinheiros mortais por alguns instantes. A Campeã Minguante permanece encarando os céus e nota a presença do ser reptiliano. A silhueta cobre parte do céu e começa a se tornar maior a medida que se aproxima. A Filha da Tormenta sobrevoa os navios que voltam a atirar uns contra os outros. Ela começa a assumir sua forma humanoide ainda voando e aterrissa com a destreza de uma acrobata no mastro do navio da Campeã enquanto seus olhos, assim como seu corpo, liberam eletricidade arcana.

– Fico contente que não invocou meu título, Tessa! Somos aliadas até o fim desta guerra. Obrigada por chamar-me de Liandra. – responde a Draga enquanto observa o conflito.

– Então que assim seja! Homens, o comando agora é da Draga Liandra. Sigam-na sem pestanejar.

– Sim, Senhora Campeã Lunar!

Liandra continua observando e até que encontra o que estava procurando. Ela avista um galeão chamado Herança de Kain, uma embarcação com quatro fileiras de canhões que não possui tripulação e não toca as águas. Krivoc não seria tolo de deixar a fonte de poder de sua frota tolamente exposta. A recém-intitulada comandante impõe sua voz de Draga e ordena às frotas aliadas.

– A fonte de poder dos navios de Krivoc está nos céus em uma nau com apenas uma criatura responsável por este ataque. Aqueles capazes de voar, acompanhem-me. Arcanistas, conjuradores e devotos, drenem a Essência da Água. Tessa, prepare as suas espadas… temos um necromante para matar.

Então teve início o confronto final pela Costa Borrasca. Liandra e Tessa lideraram o combate aéreo e tiveram que lidar com pequenas hordas de demônios e gárgulas. Muitos dos conjuradores que acompanharam mal conseguiram conjurar suas magias e pereceram pouco depois de alçarem voo. Aqueles que permaneceram em alto-mar drenaram a Essência da Água e isso provocou a ira dos elementos que se levantaram em forma de vórtices de energia natural. Ao notarem a reação da natureza, eles começaram a devolver a essência absorvida na direção dos mortos-vivos. Compreendendo a situação, os elementais se moldaram em formas humanoides e se viraram contra as tropas necróticas.

Nos céus, a Draga e a Campeã, ao lado da infantaria remanescente, pousaram no convés do galeão. Por causa das nuvens havia uma névoa densa. Por meio de seus sentidos sobre-humanos, Liandra assumiu a frente enquanto sinalizava por onde suas forças deveriam caminhar. Tessa segue atenta e ouve o som de armadilhas sendo disparadas. Mais marujos mortos. Segundos depois, eles se reerguem sob o controle do necromante que ainda não fora identificado. Sem opção, as líderes engajam em um combate brutal.

– Liandra! Não consegue dar um jeito em todos eles de uma vez? Afinal, você é ótima em chocar as pessoas.

– Você não sabe o que um raio faz quando atinge uma superfície molhada? Acho melhor eliminar eles de uma forma mais tradicional.

Uma voz fraca, rouca e tenebrosa ecoa nas mentes de todos os que estão no galeão. Uma luz esmeralda começa a emanar de todo o navio e é avistada até mesmo pelas forças que estão na água. Alguns acreditavam que seria o fim e muitos não conseguiam nem mesmo se mover. Ao passo que a luz ficava mais intensa, a voz dizia.

– Vocês, mortais, precisam entender que o equilíbrio nunca existirá até que todos compreendam que os ciclos devem ser rompidos. Agora morram e então renasçam sob o meu domínio.

Um homem de pele pálida, cabelos brancos e vestes escuras se aproximava calma e lentamente. Liandra começou a assumir sua forma de Draga enquanto Tessa ativou as runas das Aqua Inferos. Ambas tiveram um lapso de memória de algo que o Ancião Baruk havia dito sobre um eco do Primeiro Necromante que assumiu um corpo mortal.

– Você deve ser Kain, aquele que diz ser o filho e único herdeiro de Krivoc. Sinto dizer, garoto, mas você não vai sair daqui! – afirma Liandra enquanto alça voo.

– Eu já vi muitos homens nos mares de Ayla, mas você certamente é o mais feio. – fala Tessa enquanto avança para atacar.

Surpreendentemente, Kain também era versado no combate a curta distância e Tessa notou isso da pior forma possível. Ela deixou uma abertura entre as costelas enquanto tentava cortar a barriga de Kain que, por sua vez, a perfurou gravemente nessa brecha enquanto drenava o sangue dela para curar seus ferimentos. O grito de agonia da Campeã foi o gatilho necessário para que Liandra se lembrasse do que Baruk havia lhe dito: “Krivoc nunca foi misericordioso e te obrigará a fazer coisas que você não gostaria de fazer, criança. Quando o momento chegar, você terá que sacrificar algo pelo bem de todos!

Liandra, a Filha da Tormenta, conseguia sentir ao longe todas as tropas aliadas e inimigas. Suas lágrimas estavam se misturando com a chuva enquanto ela carregava seu corpo com toda a essência arcana e natural para dar um fim ao conflito de uma vez por todas. Tessa agonizava enquanto seus antigos companheiros, agora sob o controle de Kain, a jogavam de um lado para outro. No mar, os barcos estavam começando a ficar encurralados. A Draga, com pesar, se joga contra o galeão que sobrevoava os mares do norte. Uma explosão causou ondas gigantes que avançaram para a costa que estava sendo defendida arduamente pelas frotas das Grandes Anciãs Lunares. Os elementais conseguiram reverter os efeitos das ondas. O conflito acaba.

Dias depois, Liandra acorda na praia. Há destroços de embarcações por toda a parte. Alguns corpos dilacerados a sua volta além de um brilho azul-celeste ao seu lado que emanava uma energia fria, boreal e gélida. Sozinha, com dor e ainda fraca, a Draga em sua forma mortal com cabelos pretos e cacheados e roupas simples de uma vila de pescadores, caminha até esta fonte de energia, vê o que mais temia e pega para si enquanto pensa consigo mesma.

Baruk, eu sacrifiquei centenas de vidas das Anciãs. Tessa foi uma dessas vidas e tudo o que restou foi o legado de Celes… Inférnia. Eu manterei as lâminas em segurança, mas de agora em diante ninguém mais sofrerá o destino amaldiçoado que acompanha estes artefatos assim como também não me encontrarão. Sinto muito, irmão.

A Batalha da Costa Borrasca foi a primeira batalha que deu início a queda de Krivoc, no passado. Acredita-se que não houve sobreviventes do conflito e que as Aqua Inferos, as lâminas forjadas por Magni como presente aos homens santos de Celestia na guerra contra os demônios foram perdidas assim como a vida de Liandra. Alguns acreditam que por vingança por não ter conseguido obter as espadas, Krivoc em pessoa capturou um dos generais de Celestia que possuía sangue demoníaco e assim criou o primeiro mortal com poderes de demônio que hoje é conhecido como Filho do Inferno, um mercenário que luta para aqueles que pagarem mais.

As consequências daquela guerra são sentidas até hoje. Os Elfos sofrem pelos seus pecados, os Feudos dos Anões foram divididos em facções, Celestia se tornou uma representação do inferno em nosso mundo, todas as terras do norte não possuem recursos para vida mortal. Espero que Krivoc continue preso onde o deixamos.

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