Aqua Inferos, o Caçador

Eu nunca quis ser o que eu sou. As pessoas me chamam de herói, mas isso nunca foi algo que eu desejei me tornar. Sabe aquela coisa de estar no lugar certo na hora certa? Acho que foi mais isso que rolou comigo do que qualquer outra coisa. Eu era um cara normal vivendo mais um dia qualquer da minha vida. Eu sou… bom, eu era um caçador, eu caçava apenas para sobreviver e vendia a carne para as tavernas locais e o couro para os armeiros e alfaiates. Era uma vida comum e difícil, mas divertida. Nada era muito diferente exceto quando haviam matilhas ou grupos grandes de felinos ou enxames. Acho melhor falar logo como eu me tornei quem eu sou hoje.

Era um fim de tarde como todos os outros em Inférnia. O calor da região é normal para os seres de sangue demoníaco que vivem na região, mas para mim ainda era tudo muito novo e eu estava exausto. Sabe como é difícil caminhar pelo deserto? Ainda que você saiba se virar em algumas situações e evitar tempestades de areia, a mudança de temperatura durante o dia é literalmente insana. Eu estava levando algumas gazelas dorcas para um mercador que havia me contratado. Os portões colossais e rústicos da cidade escarlate estavam se aproximando e era comum haver fumaça. As brumas de Inférnia formam uma espécie de proteção mágica na cidade. A diferença desta vez era que a fumaça estava escura e tinha cheiro de fuligem.

Tentei me aproximar o mais rápido possível e a minha visão ficava cada vez mais turva. A cidade em si tem um cheiro natural de enxofre por toda a parte. Não chega a ser nada nocivo para as pessoas que não nasceram nesta região, mas é no mínimo uma marca do orgulho do povo que vive na cidade. Eu tentei identificar de onde vinha o cheiro da fuligem, mas eu não consegui por causa do enxofre. Então eu comecei a procurar por sons e não demorou muito para ouvir gritos de desespero e barulho de espadas. Tudo que eu tinha comigo eram duas espadas curtas, meu arco e as flechas que restaram da caça às gazelas. Tudo o que eu pensava era em como eu vim parar em Inférnia se eu estava tranquilo bem perto do Arquipélago do Dragão.

Me apressei para chegar a origem dos gritos e havia sinais de conflito por todo o caminho. Algumas pessoas estavam mortas e outras feridas de uma forma que eu não poderia tratá-las nem mesmo com minhas magias de cura. Algumas estruturas da cidade já haviam sido destruídas, a Armada Macabra, a elite de guerreiros de Inférnia, estava focada em neutralizar a criatura mais bizarra que eu já vi. Era uma espécie de demônio gigante feito de pedras vulcânicas, três pares de chifres e falava um idioma desconhecido para mim. A criatura infernal tinha quase nove metros de altura, estava devastando a cidade e colocando todos civis em risco. Eu precisava agir.

Corri para chegar até um guarda que acabara de ser arremessado contra uma parede para ver qual era o estado dele e ele ainda estava vivo o suficiente para me dar algumas informações.

– Guarda, me fala o que é aquilo e como é que eu posso ajudar. – eu disse enquanto preparava o meu arco e carregava o saco com as gazelas.

– V-você precisa sair daqui, caçador… Aquilo é um Demônio de Enxofre. Ele explodiu nossas forjas e nossas fornalhas. Nós, da Armada, estamos… estamos tentando levar ele e seus soldados para a água. É o único jeito de destruí-lo.

– Certo… água resolve. Obrigado… – eu disse enquanto a Essência dele deixava o corpo.

Eu precisava achar muita água. Levá-lo para o oceano seria impossível e a cidade seria ainda mais destruída. Eu precisava achar um jeito de parar aquela coisa e no começo eu só tinha que caçar algumas gazelas. Decidi ir pelos telhados porque não era muito diferente de caminhar pelas árvores de Ael’Fellor para evitar o combate contra os demônios que a Armada Macabra estava enfrentando. Demorei algum tempo até chegar a uma distância segura para avaliar a situação que ficava pior a cada segundo. Um inferno.

Olhei ao redor e comecei a procurar qualquer fonte de água. Depois de algum tempo eu vi um rio que terminava em uma espécie de lagoa. O demônio não estava muito longe do local, mas eu precisava chamar a atenção dele de alguma forma. Jogar meu cantil? Seria inútil! Eu precisava de algo grande e encontrei uma daquelas caixas de água. Então eu corri até um ponto mais alto para saltar na cabeça daquela coisa e cravei minhas espadas nas costas dele enquanto ativei as runas elementais de gelo. Eu quase me queimei inteiro, mas consegui o que eu queria.

Pulei da cabeça daquele colosso em cima de um reservatório de água, ele bateu para tentar me esmagar e se molhou. Isso o fez urrar de dor e eu soube que estava no caminho certo. Então continuei atraindo a atenção dele para mim, pois perto da lagoa não havia pessoas em risco. Me movi o mais rápido que pude em meio às árvores retorcidas. No trajeto eu tive que deixar meu arco para trás e perdi minha aljava. Só me restou as espadas que ganhei de um anão ferreiro beberrão. Foi então que tudo aconteceu rápido demais para eu entender.

Fui para o chão e precisei correr muito mais do que eu já havia corrido enquanto tentava desviar das pedras em chamas que ele jogava em mim. Cheguei a lagoa e o demônio estava logo atrás de mim. Quando alguns guardas chegaram eu perguntei algo.

– Vocês sabem o que acontece quando uma massa de ar quente se choca contra uma massa de ar frio? Precipitação.

O rastro de destruição do demônio fez com que o rio evaporasse e então começou a chover. Aquela coisa foi perdendo força e caiu na lagoa. Os guardas queriam me dar uma recompensa, mas eu precisava terminar meu serviço e pegar o próximo. Alguns me perguntaram como eu consegui aquilo, mas eu só dei as costas e fui embora. Entreguei as gazelas, comprei um arco e algumas flechas para seguir meu caminho.

Como eu disse antes, eu nunca quis ser um herói. Agora, em Inférnia, alguns me chamam de Aqua Inferos. Talvez eu mereça esse nome, mas eu sou apenas um caçador que vive daquilo que vende às pessoas certas. Às vezes preciso lidar com monstros como parte do trabalho, mas não porque eu quero e sim porque é necessário. Eu vivo apenas para sobreviver.

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