Acordos velados

“Lembre-se que, por causa deste favor, você me deve a sua existência porque o que você tem não pode ser chamado de vida.”

Essas foram as palavras de Michel na fatídica noite na qual Kamili, após décadas sob o controle de tudo, entrou em uma dívida eterna com alguém cujo o sangue é mais fraco que o seu. Sendo ela uma mulher de negócios, ela sabia quando seus recursos estavam decaindo por causa de decisões precipitadas. Neste caso, os recursos eram os dias que estavam contados e a decisão foi buscar ajuda de alguém que possui uma moral deveras questionável.

Em meados do século XIX, Michel e Kamili foram abraçados. Sempre houve rivalidade entre ambos, mas nada que prejudicasse a amizade que mantinham desde a infância. Ele, um ator em ascensão com pessoas ao seu redor para atender seus desejos mais supérfluos, estava sempre contando histórias sobre suas viagens para as mulheres que ficavam fascinadas com suas supostas aventuras. Por outro lado, ela estava tendo problemas com seus negócios uma vez que a república brasileira estava recém-formada e rumores de ataques de feras estavam se espalhando e afastando os viajantes das pousadas.

Os anos se passaram e Amaya estava em decadência em todas os setores levando a queda do principado e fazendo com que toda a comunidade vampírica de debandasse. Kamili e Michel buscaram refúgio no Rio de Janeiro. Ele não se sentia confortável com tudo o que estava acontecendo, mas Kamili parecia ainda mais confiante do que de costume.

– Ora, Michel! Não há o que temer. Será mais uma história para você contar às raparigas que vivem aos teus pés.

– Eu não estou certo de que você esteja fazendo as coisas da melhor maneira, minha amiga.

– Apenas me acompanhe. Semanas atrás eu conheci um rapaz chamado Ernesto. Não sei bem porque ele estava interessado em organizar eventos em Amaya, mas ele me disse que se eu precisasse de algo, ele me ajudaria. E agora, acho eu, que precisamos de ajuda.

Ainda receoso, Michel acompanhou Kamili até o Rio. Ambos buscaram o endereço que o tal Ernesto havia escrito em um guardanapo que a mulher havia guardado para o dia que precisasse cobrar o favor. O endereço era de um prédio de três andares no qual havia um estábulo e um salão usado como bar e restaurante.

O casal de amigos entrou no ambiente que estava movimentado com pessoas rindo, comendo, bebendo e dançando. Michel, compulsivamente, ficou obcecado com a decoração e com a música enquanto Kamili procurou uma das atendentes a fim de encontrar Ernesto. Alguns minutos depois de ouvir Michel falando o quão bela é a estrutura do local, uma porta se abre e um homem com roupas nobres se aproxima. Cartola, gravata borboleta, camisa de linho branca além de uma postura aberta e receptiva sem qualquer sinal de timidez. Ele reconhece Kamili e se aproxima para cumprimentá-la.

– Seja muito bem-vinda ao Rio, Kamili. Está de passagem pela cidade? – fala o homem de voz aveludada.

– Quem dera eu estivesse de passagem, caro Ernesto. Meu amigo, aquele que está dançando com a moça de cabelos claros, e eu estamos precisando de auxílio apenas por algumas noites. Amaya sofreu um ataque de um grupo de rebeldes e foi tomada. Nossos pais… não sobreviveram e eu perdi a pousada. Você tem algum quarto vago para nós para ficarmos durante algumas noites?

Ernesto parecia intrigado. Amaya sempre teve a reputação de ser uma cidade regida por punho de ferro pelo principado local. Kamili e Michel ainda pareciam jovens demais para entrar diretamente no conflito, mas ambos chegaram intactos pelo que se podia observar. Depois de pensar um pouco, Ernesto sorri e responde.

– Tenho uma suíte livre no último piso. Vou pedir para que preparem tudo para que vocês fiquem confortáveis. Enquanto aguardam, desejam algo para comer?

A besta dentro de Kamili estava prestes a sair e, estranhamente, ela conseguia se conter. Instintivamente ela queria se alimentar de algo vivo, mas decidiu manter o que restava de compostura naquela noite.

– Eu aceito um pouco de vinho e, se possível, uma taça extra para meu amigo.

Ernesto pede para que um dos atendentes sirva Kamili e um jovem rapaz a leva para uma mesa. Algum tempo depois, Michel deixa o salão e se encontra com sua amiga. Ele ainda estava extasiado com tudo o que estava vendo. Ele serve vinho para Kamili, se serve e então para e descansa um pouco.

– O Rio sempre é fabuloso, mas este lugar é um espetáculo, não acha? – indaga Michel entusiasmado.

– De fato! É uma cidade excelente tanto para diversão quanto para negócios. Talvez seja um lugar interessante para nós dois, velho amigo.

Ernesto retorna depois de algum tempo. A movimentação no bar já havia diminuído e ele acompanha Kamili e Michel até a suíte que foi cuidadosamente preparada. A cama devidamente arrumada, janelas e roupas de banho limpas além de um vapor vindo do banheiro indicando que a banheira estava com água quente.

– Fiquem à vontade e aproveitem a estadia, crianças. – fala Ernesto enquanto os deixa a sós.

Michel se move até Kamili, a segura pela mão e ambos começam a dançar enquanto conversam.

– Quando você disse que ele seria de grande ajuda, eu não achei que seria algo tão grandioso. Será uma bela história, minha cara.

– Você deveria confiar um pouco mais em mim, Michel. Acredito que, ainda que tenhamos nossas diferenças, estaremos sempre juntos e, nas nossas atuais condições, creio que será pela eternidade.

Michel nunca ouvira Kamili dizer algo de forma tão romântica. Naquela noite eles se apaixonaram. As próximas noites foram reveladoras e os dois começaram a perceber que o ambiente tinha movimentações estranhas durante os eventos. Após mais uma noite divertida com bebidas e danças, o casal recém-estabelecido ouviu barulhos vindos do final do corredor no qual estavam hospedados. A voz de Ernesto era perceptível e havia uma mulher discutindo com ele. Michel fez um sinal para que Kamili permanecesse em silêncio enquanto ele se aproximava para ouvir melhor.

– Você sabe como as coisas são em nosso culto, meu caro mentor. – fala a mulher.

– É muita audácia sua, Lilian! Você sabe que não é páreo para mim e você não está pronta para cometer tal ato.

– Do que diabos eles estão falando, Michel? – sussurra Kamili apreensiva.

– Ainda não tenho certeza. Deixe-me ouvir, querida.

Dentro do quarto, Ernesto está diante de uma mulher com cabelos loiros tão claros que são quase brancos. Os olhos castanhos avermelhados e uma postura de superioridade. Ernesto, ainda com uma camisa branca e calças, olha para Lilian com desprezo e continua falando.

– Ouça bem, criança, você não vai conseguir isso facilmente…

– Eu esperava que você dissesse isso, velhote!

De dentro do roupão, Lilian saca uma estaca de madeira e avança contra Ernesto que, por sua vez, se defende jogando a mulher no chão. Do lado de fora, Kamili e Michel ouvem os solavancos e, por um senso de lealdade, Kamili tenta derrubar a porta e seu companheiro a ajuda. Em determinado momento da briga, Ernesto desarma Lilian e ouve o som oco da porta caindo.

– Saiam daqui! Vocês não sabem onde estão se…

A distração causada pelo casal foi o suficiente para que Lilian recuperasse a estaca e a cravasse no peito de Ernesto. Ela olha para Michel e Kamili e diz com frimeza.

– Deixem-nos a sós!

Michel simplesmente se retira, mas Kamili permanece no local e caminha vagarosamente em direção a Lilian.

– Diga-me, garota, o que levou a tamanha confusão?

– Apenas veja e aprenda.

Lilian morde o pescoço de Ernesto e começa a drenar seu sangue. Algumas gotas de um sangue escuro e viscoso caem no chão enquanto veias escuras começam a aparecer por tudo o corpo da mulher que se alimenta do sangue de Ernesto que, empalado, é incapaz de se locomover. Passam-se alguns minutos e o corpo de Ernesto se desfaz. Uma aura sombria começa a tomar conta do local e Lilian ri de prazer. Kamili avança para atacar acreditando estar ameaçada, mas sombras começam a envolver seu corpo quando Lilian movimenta uma de suas mãos.

– Isso que presenciou se chama Diablerie, minha cara. Agora eu sou tão poderosa quanto o saco de pó ali no chão e serei ainda mais… quando eu te levar ao destino que ele encontrou.

Lilian se aproxima e morde Kamili começando a se alimentar do sangue dela. A vítima começa a gritar, mas logo o êxtase a consome. Quando sua consciência está se esvaindo, ela ouve o som de carne se rompendo. Segundos depois, Lilian cai empalada e Michel está ensanguentado. Ele quebra o pescoço de Lilian, remove a estaca e Kamili o abraça.

– Obrigada!

– Não me agradeça ainda, Kamili. Estamos em dívida!

A seriedade retorna ao rosto de Kamili.

– Eu flagrei você sendo cúmplice de uma Diablerie e o principado local logo saberá. Sua eternidade acabará quando eu quiser, mas podemos prolongar isso por mais algumas décadas.

– Como eu pude ser tão ingênua! Você estava me manipulando todas essas noites?

– E você ousava dizer que estava sempre no controle de tudo, Kamili. Acredito eu que isso não seja mais verdade uma vez que sua a vida está em minhas mãos agora. No entanto, como você me salvou do Massacre de Amaya…

Lembre-se que, por causa deste favor, você me deve a sua existência porque o que você tem não pode ser chamado de vida.”

– Lilian…

– Lilyth!

– Pouco importa! Eu preciso me livrar de Michel e um de nós encontrará a morte final. Você precisa de auxílio e Hélio está voltando à cidade. Ajude-me a colocá-lo no trono de Amaya e acredito ficaremos seguras.

Em uma sala de reuniões dentro de uma boate nos dias atuais, Kamili fez este acordo com Lilyth, antiga Lilian dos Lasombra. Elas apertam as mãos e Lilyth começa a falar.

– Michel tem apego a sua linhagem. Há uma Tremere inexperiente se alimentando na região e uma Toreador que é cria de Michel. Acho que podemos dar início aos trabalhos, Ventrue.

Horas mais tarde, uma mulher de cabelos escuros usando um vestido preto longo e decotado entra na sala de Lilyth em desespero.

– Eu sei quem você é e do que é capaz de fazer, Lily. Eu preciso de ajuda!

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