Herdeiros Dracônicos

Um casal de irmãos viajava pelo Deserto Aracnorrubro que fica oeste do continente de Aylin. Ele, um homem negro careca trajava roupas leves e carregava uma mochila de viagem grande além de usar braceletes de couro com ornamentos de prata. Um pouco mais adiante, uma mulher, também negra, com uma mecha de cabelo cacheado na frente do rosto. Ela também carregava uma mochila de viagem, vestia manoplas e segurava um mapa. Pela forma que caminhavam e pelo estado das roupas, eles estavam percorrendo as dunas a alguns dias e a exaustão estava se tornando uma companheira incômoda.

No mapa, a mulher verificava se estavam na direção correta. Eles estavam em busca de algo que mudaria o destino da família e da guilda das quais ambos faziam parte. Era uma missão na qual falhas seriam inaceitáveis e o próprio líder da organização ordenou em eles fossem designados para algo que, até então, nenhum outro membro havia conseguido: encontrar os restos mortais do primeiro Dragão Negro de Ayla. A possível localização do covil do dragão estava a menos de um dia de viagem, mas por causa do cansaço, o homem sugeriu que montassem acampamento porque estava começando a escurecer.

– O covil não vai sair do lugar, Sara, e de nada adianta arriscarmos tudo agora e morrermos no processo. Papai vai continuar nos esperando e mamãe cuidará do garoto, filho dos Dillinger.

A mulher para de caminhar e fecha o mapa. Os olhos castanhos atingiam a tonalidade de mel durante o crepúsculo. Ela olhou para seu irmão e caminhou até ele. Ela segurou a mão dele antes de começar a falar.

– Ouça, Tyler, temos muito o que fazer e você está certo. É raro você ser tão sensato, então acho que vou te ouvir desta vez. Prepare as rações de viagem enquanto eu monto as nossas barracas.

Tyler e Sara eram herdeiros do manto de Lâminas Gêmeas, título dado aos assassinos que liderariam a Ordem dos Dragões Negros, o serviço de inteligência da coroa de Luária. Desde a infância eles foram preparados para este momento que a cada dia se aproximava. A frieza e a imprevisibilidade de Tyler complementava as táticas diplomáticas e o conhecimento arcano nato que Sara desenvolvera. Os laços entre eles sempre foram fortes e não havia nada que pudesse abalar a relação fraterna deles. Logo que terminaram de montar acampamento, Tyler quebrou o silêncio.

– Então, o covil não está muito longe. Aposto que estará lotado de armadilhas. Dragões são conhecidos por serem extremamente astutos.

– Armadilhas nunca foram um problema para você, irmãozinho. – responde Sara com orgulho. – Então, por favor, tente seguir o plano pelo menos desta vez, pode ser?

– Eu não vou prometer nada. Nunca se sabe quando vamos precisar improvisar. Agora come esse negócio antes que esfrie. As noites no deserto não são nem um pouco agradáveis… eu já estou sentindo falta da Torre Obsidiana. – diz Tyler pouco antes de dar uma colherada na comida.

Sara conhecia o irmão que tinha e sabia que não havia uma forma de fazê-lo seguir um plano uma vez que ele trabalhava melhor com improvisos. A noite foi tranquila e a viagem até a entrada do covil foi interrompida por uma pausa para encher alguns cantis com água em um oásis que estava na rota traçada antes da jornada começar. Após algumas semanas de peregrinação, Sara e Tyler finalmente chegaram ao Covil de Obsidiana, lar dos primeiros Dragões Negros.

A entrada do covil possuía o rosto de um ser reptiliano esculpido com a boca aberta. Uma energia esmeralda emanava das narinas da escultura e os olhos também brilhavam na mesma cor. Ambos seguiram para dentro do covil que tinha uma estrutura labiríntica. Sara assumiu a liderança enquanto Tyler iluminava o caminho. Depois de passarem algumas horas procurando a localização do corpo do dragão, Tyler sentiu um cheiro ácido e ferroso se espalhar pelo ar junto com o som de algo macabro.

– Sara! Há armadilhas de ácido e não estamos sozinhos aqui.

Os irmãos ficaram alertas e continuaram caminhando enquanto seguiam o cheiro e o som até chegarem ao fim do labirinto que dava acesso a uma galeria enorme na qual haviam homens dragão realizando um ritual enquanto entoavam um cântico em um idioma desconhecido. Sara seguiu pela direita e Tyler se tornou um com as sombras. Em pouco tempo, ambos haviam eliminado os cultistas. Quando Tyler estava prestes a matar o último, Sara interveio.

– Precisamos de respostas, irmão! E acredito que ele está disposto a nos ajudar.

– Eu não vou dizer nada a vocês, humanos miseráveis.

Tyler pressionou a lâmina de seu bracelete contra o pescoço do homem dragão até um pequeno filete de sangue escorrer.

– Coopera com a gente e você vai poder contar essa história pessoalmente ao seu imperador quando entregarmos você aos Anciões do Covil.

O homem dragão engoliu a seco e começou a falar.

– E-este é, ou era, Krivoc. O primeiro Dragão Negro de nosso mundo e atual Arcano Necromante era feito de pura essência assim como todos os dragões. Dizem que aqueles que conseguirem o sangue dele poderão escolher entre a ascensão dracônica e a imortalidade, mas o custo é alto demais para realizar a segunda opção. Eu não entendo o que meros humanos querem com algo que está além de seus conhecimentos.

Sara se aproximou do reptiliano enquanto Tyler foi até os restos mortais de Krivoc. Ela encarou a criatura como se pudesse ver a alma dela.

– Nós, ele e eu, somos herdeiros do Coração Negro. Somos de uma antiga linhagem de conjuradores herdeiros do primeiro feiticeiro dracônico de ascendência de dragão negro. Então eu acho que sabemos como isso termina, amigo.

Enquanto Tyler extraia a essência restante de Krivoc, Sara fez um corte limpo causando hemorragia no homem dragão. Os irmãos se encararam por um tempo. Agora, com a Essência de Kirvoc em mãos e com a localização exata do covil de seus ancestrais, eles poderiam proteger a coroa e impedir o avanço dos inimigos de sua família sem medo da morte.

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