O abraço de Alice

Alice sempre foi uma pessoa perfeccionista. Seus pais nunca precisaram pedir para que ela fizesse o mínimo que adultos pedem às crianças. Ela sempre arrumava seus brinquedos ao terminar de brincar, seu quarto sempre estava impecável e eram raras as vezes que ela permitia que alguém cuidasse de suas coisas. Ela sempre teve interesse em aprender tudo o que lhe interessava para que não precisasse depender de ninguém até o fatídico dia no qual alguém dependeria dela pela eternidade.

Já adulta, Alice casou-se com o engenheiro Humberto Cavalcante. Eles esperavam a primeira criança da família e ambos estavam animados com gravidez da jovem professora. O perfeccionismo de Alice durante a gravidez se agravou e tudo deveria ser feito da melhor forma possível para que o nascimento da criança fosse algo perfeito tanto para ela, quanto para seu esposo que, para manter sua família, estava fazendo horas extras no escritório, pois sua esposa estava afastada das atividades de ensino por estar a poucas semanas de dar a luz.

A rotina do casal havia mudado severamente desde o momento em que o médico revelou a gravidez de Alice. Ambos comemoraram com seus amigos e familiares, as visitas de seus respectivos pais e irmãos se tornaram mais recorrentes, o estresse também aumentou por causa dos hormônios de Alice, que estavam a flor da pele, e a pressão do trabalho de Humberto também se tornara grande quando seu chefe anunciou que havia uma vaga de promoção sendo disputada. No entanto, eles não precisariam mais se preocupar com todo aquele caos porque em poucas semanas a promoção de Humberto estaria efetivada e Alice seguraria a pequena criança com a qual tanto sonhou.

Tudo estava perfeito e caminhava conforme o planejado, mas a vida tem sempre encontra uma forma dramática de surpreender até mesmo aqueles que cometem o menor número de pecados possível. Alice estava em casa a poucos dias de dar a luz já com algumas parteiras prontas para trazer ao mundo a criança que traria a alegria que o casal havia esperado nos últimos nove meses. A campainha da casa tocou algumas vezes em uma situação atípica na residência: Humberto não tinha o hábito de não avisar sua esposa quando fosse ficar até mais tarde no trabalho. Com cautela, Alice desceu as escadas para chegar a porta da frente, destrancou a fechadura com rapidez e não conseguiu disfarçar a emoção em sua voz suave.

– Delegado? O que faz aqui?

Um homem usando um chapéu coco, sobretudo de camurça, camisa social, sapatos pretos bem lustrados, gravata e suspensórios estava parado diante de Alice. Ele tirou seu chapéu revelando um corte de cabelo impecável. Com feições austeras, ele respondeu a mulher grávida.

– Senhora Alice, vais bem?

– Boa noite, senhor. Vou sim. Necessita de algo a esta hora da noite?

– Senhora, como sabe, eu sou o Delegado Bastos. Eu tenho notícias desagradáveis e urgentes.

Um arrepio subiu pela espinha de Alice que, em sinal de respeito a autoridade, fez um gesto para que ele entrasse. Ela pediu para que uma de suas moças trouxesse um pouco de chá e alguns biscoitos. O Delegado se acomodou em uma poltrona e Alice em outra. Era nítido o desespero da mulher e ele pensava em uma maneira de dizer o que precisava ser dito. De uma forma ou de outra, ela ficaria sabendo cedo ou tarde porque as notícias sempre correram rápido em Amaya. Ele agradeceu a moça pelo chá e pelos biscoitos, serviu Alice e, enquanto servia sua própria xícara, começou a falar.

– Senhora Cavalcante, não há uma maneira fácil de falar o que tenho a dizer. – ele bebeu um pouco de chá. – Seu esposo foi encontrado próximo de uma vala nas docas. Alguns médicos foram enviados ao local e levaram-no ao hospital às pressas.

– E como está meu esposo, Delegado? – questiona Alice com lágrimas nos olhos.

Delegado Bastos desfaz sua postura séria e se compadece do sentimento de Alice. Ao dar a notícia, a mulher caiu no chão em prantos com um misto de raiva e desespero ao saber do falecimento de seu esposo. Em meio ao choro, Alice sentiu fortes contrações e urrou de dor. A moça que serviu o chá chamou a parteira enquanto ajudou Alice a se levantar. A experiência da mulher entrou em ação ao olhar para o Delegado que carregou Alice até o quarto por não haver tempo para levá-la ao hospital.

O parto estava sendo complicado. Alice mal conseguia ficar acordada, os panos limpos estavam prestes a acabar e Delegado Bastos estava do lado de fora pensativo. Ele deveria ter dado a notícia naquele momento? No quarto, a mulher grávida fazia força quando sua visão ficou turva e um silêncio tomou o ambiente. Momentos depois, um choro agudo.

– Senhora Alice… é um menino! – disse uma das moças ao trazer a criança. – Já haviam escolhido um nome para o garoto?

– Luciano. O nome dele é Luciano.

Alguns dias depois do nascimento de Luciano, Alice teve que velar seu esposo. Aquilo que deveria ter sido perfeito deixou de ser de uma hora para outra e os anos fizeram isso se tornar ainda mais grave. Limpeza, organização, cuidado com as roupas e diversas manias deixavam claro o Transtorno Obsessivo Compulsivo da viúva que se tornou protetora com seu filho.

Durante um surto de tuberculose, Alice adoeceu e veio a falecer deixando Luciano órfão aos cuidados de seus avós maternos. Estranhamente, ela despertou presa em uma camisa de força. A visão turva visualizou a silhueta de alguém que não envelheceu um dia sequer.

– Alice, seu perfeccionismo pode ser útil à nossa Dama.

Era Bastos, mas seus traços eram bestiais como uma fera em busca de uma presa.

– Leve-me ao meu filho, Delegado! Eu não posso permanecer aqui.

– Não podemos arriscar que você cometa algum deslize. – diz o homem com seriedade.

– Uma última vez… por favor.

Bastos cede ao pedido de Alice, a solta e a avisa.

– Você não é como costumava ser. Há mudanças gradativas pelas quais eu também passei. Eu fui o doador de sangue para sua transfusão e isso a tornou algo que está além da compreensão da maioria do povo desta cidade. Seu esposo foi vítima de alguém como nós, mas o culpado já recebeu as devidas punições de acordo com as leis do Principado.

– Que loucura é esta que está me dizendo? E por que esta com a gravata amassada e com um nó tão esculhambado?

– Com o tempo, Alice, você entenderá como nossa sociedade funciona e aceitará que tudo o que conhecia não passava de uma mera ilusão.

Alice e Bastos deixam o local e ela percebe que havia sido levada para um sanatório. Era noite e estava frio. Ambos caminharam calados até os arredores da residência da família de Alice. Alguns metros antes de chegarem, Bastos segurou Alice pelo braço com cuidado.

– Para todos na cidade, você foi internada na ala de tuberculosos em quarentena para receber tratamento adequado. Quando terminar a visita ao seu filho, olhe nos olhos dele e diga com veemência: “Durma e amanhã saberá que foi tudo um sonho.

Alice assentiu ainda confusa e seguiu em meio as sombras das árvores projetadas pela luz do luar. Ela não sentia a mudança de temperatura e notou que não havia necessidade de respirar. Chegando a janela do quarto de seu filho, Alice escalou até o segundo andar e entrou no recinto. Ver seu menino dormindo lhe trouxe um pouco de conforto. Ela se aproximou da cama e sentou-se na beirada.

– Luciano… é a mamãe.

Em um salto espontâneo, o garoto acordou e abraçou a mulher que estava com a pele fria. Para ele não fazia diferença porque ela era sua mãe.

– Eu achei que a senhora não fosse melhorar.

– Eu sempre vou melhorar, meu filho. Nunca vou te deixar sozinho. – ela segurou o rosto do garoto e continuou. – Quero que seja um homem bom, honesto e que respeite as mulheres como seu pai me respeitava. Faça amigos, coma direito e cumpra com sua palavra. Você precisa descansar, meu filho. Agora durma e lembre-se disso como um sonho… – terminou Alice com a voz nitidamente trêmula.

O garoto adormeceu e Alice saiu da casa na qual crescera pela última vez. Bastos a aguardava perto de uma árvore. Eles se entreolharam e ela o questionou.

– Minha antiga residência. Imagino que tenha sido interditada uma vez que eu e meu filho não estávamos lá. Se possível, ficarei lá e você me dirá tudo o que preciso saber sobre sua Dama e essa sociedade. Não se esqueça de limpar os pés ao entrar.

Desde então, ainda que distante, Alice viu o desenvolvimento de seu filho ao passo que deixava de ser uma neófita. Viu seus netos, bisnetos, tataranetos e a ramificação de sua família enquanto seu rosto não envelhecera um dia sequer. Ainda hoje ela guarda retratos de seu filho, registros de sua árvore genealógica, um jogo de chá de porcelana e as roupas de Humberto como elo ao que resta de sua humanidade.

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