Parceria inusitada

Tessa sempre foi uma menina carismática. Desde criança, os seus pais a ensinaram a falar com as pessoas e a convencer qualquer um a comprar suas frutas. Ela cresceu na capital do Reino Argênteo, Luária, como muitas outras crianças. Ainda em sua adolescência, a garota descobriu que o que ela fazia naturalmente poderia ser amplificado por meio da magia e da música. Como ela não tinha muita aptidão para tocar instrumentos nem para cantar, a menina pediu para que sua mãe a ensinasse a dançar.

Alguns anos se passaram, e como uma mulher adulta, Tessa se tornou uma artista famosa na capital por fazer apresentações no Portão Oeste da cidade. Seus cabelos prateados contrastavam com sua pele bronzeada e isso chamava atenção de qualquer pessoa que a visse ainda que não estivesse se apresentando. Alguns espectadores que abusavam da sorte eram conduzidos para outro tipo de dança: a lâmina de sua rapieira. Algo que poucas pessoas sabiam era que Tessa aprendeu esgrima com seu pai e o que ela não esperava era um dia ter que usar isso em sua plenitude.

Em uma noite caminhando de volta para sua casa na região norte de Luária, Tessa notou a presença de um homem de pele escura afinando um alaúde. Ele usava roupas pomposas e tinha um olhar de alguém que estava perdido. Um chapéu safári, um colete de couro, uma camisa branca de seda e calças escuras. O rapaz terminou de afinar seu instrumento e começou a tocar uma balada alegre bem perto da taverna do Peixe Podre. Animada pela canção, Tessa o seguiu.

Ao alcançá-lo, ela passou na frente dele e começou a dançar. Surpreso com a abordagem da mulher de cabelos prateados, ele começou a cantar a canção animada sobre uma aventura. A jovem adulta continuou dançando animada até que se deu conta que a música havia parado e não havia mais ninguém tocando nenhum instrumento.

– Para onde aquele bardo foi? – pergunto a si mesma.

Seu corpo estava quente e a brisa das marés começaram a soprar. A pele delicada da barda bailarina começou a arrepiar por causa do choque de temperatura e ela começou a caminhar ainda mais rápido para chegar a segurança de sua casa quando ouviu algo que, em dias normais, ela ignoraria sem pestanejar.

– Ei! Você que estava dançando minha música. Vem cá! – disse uma voz masculina e aveludada.

– Se eu pudesse te ver, eu certamente iria. Me encontre no Peixe Podre. Aposto que o taverneiro vai ter uma mesa para nós conversarmos melhor.

– Você tem gostos mais simples do que os meus. – respondeu a voz. – Te encontro lá!

Alguns minutos de caminhada e lá estavam eles chegando quase ao mesmo tempo na taverna do Peixe Podre. O homem alto de olhos castanhos tirou seu chapéu e abriu a porta da taverna para que Tessa entrasse no local. Ainda que não fosse a melhor taverna da cidade, o ambiente estava lotado. Pessoas comiam, bebiam e jogavam sem dar atenção à música do bardo local.

Tessa escolheu a mesa e ambos começaram a conversar, mas nenhum deles havia se apresentado formalmente até então. Eles perceberam que as pessoas do lugar eram um pouco perigosas aquela hora da noite. Homens e mulheres armados e usando armaduras enquanto bebiam e falavam alto. O clima fora da mesa de Tessa e do homem que a acompanhava estava tenso como se a qualquer momento uma briga pudesse começar.

– Então, você dança bem! Meu nome é Bóris e eu vim de Brisalua, um dos vilarejos a leste da capital.

– Eu sou Tessa. Acho que meus pais tinham alguns amigos nas fazendas onde compram as frutas para vender na feira do Portão Oeste. E muito obrigada pelo elogio. É muito gentil da sua parte.

Bóris olha para os lados e de debruça sobre a mesa para falar algo mais baixo.

– Tessa, é o seguinte: Aquele pessoal fedendo a rum está quase causando uma briga e nós dois podemos resolver isso antes mesmo de começar.

– E você acha que aquela música é o suficiente? – ela olha com desdém para Bóris.

– É exatamente por isso que você vai me ajudar.

Bóris chegou no taverneiro e deixou três moedas de ouro para que ele tirasse o bardo que estava no local e deixasse que ele se apresentasse com a sua parceira. Tessa ficou na mesa esperando quando notou uma mulher morena sacando um par de adagas partindo para cima dela. Instintivamente, a barda sacou sua rapieira para se defender e esquivou do ataque. De relance, ela viu Bóris colocando o chapéu dele no chão no palco enquanto ela se defendia dos ataques de alguns piratas.

O bardo que estava afinando seu alaúde, notou a briga, mas continuou afinando o instrumento. Tessa lutava com graciosidade e Bóris acenou para a bailarina que estava cada vez mais incrédula até que ela entendeu o plano do seu mais novo amigo: Bóris começou a tocar uma música usando o ritmo das lâminas se chocando e Tessa ao compreender a cadência das notas e dos golpes, sabia quando atacar, defender e ela transformou toda a briga em uma dança.

Cada uma das pessoas começou a se animar e dançar. Todos colocaram as armas no barril que estava na entrada da taverna. O clima tenso da taverna do Peixe Podre desapareceu. Os que se cansaram de dançar pediram algo para comer e beber. Além de evitarem uma briga, Tessa e Bóris ganharam algumas moedas de ouro. O taverneiro ficou satisfeito e pagou à dupla metade do valor pago ao bardo se apresentou anteriormente.

Após terminarem a noite e ajudarem a fechar a taverna, Bóris acompanhou Tessa até sua casa, se despediu da garota e voltou para o quarto da estalagem que havia alugado. A garota ficou imaginando se encontraria com Bóris novamente, não por interesse amoroso ou qualquer coisa do tipo, pois de certa forma, eles poderiam ser grandes na cidade e talvez tocar na taverna do Manto Lunar. Esse foi o começo de uma parceria inusitada.

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