Chamas de um passado inominável

Eu não tinha um nome. Eu não conheci meus pais. Tudo o que eu conhecia estava no orfanato no qual eu vivi até meus oito anos de idade. Minha vida, se é que eu posso chamar aquilo de vida, era limpar o salão da igreja depois de cada missa e obedecer o bispo que me maltratava. Como se não bastasse, as crianças não gostavam de mim porque eu sempre fui diferente. Coisas estranhas sempre aconteciam ao meu redor. Algumas crianças tinham medo de mim e outras gostavam de me chamar de monstro. Essa história é sobre o dia que minha mãe adotiva me salvou.

Era mais um dia normal. Ainda pela manhã, fomos acordados por uma freira que nos levou para tomar café da manhã. Eu estava desanimado naquele dia porque eu havia saído da detenção no dia anterior por ter queimado as roupas de um menino que tentou me bater. Ainda não fazia a menor ideia de como as roupas dele pegaram fogo quando eu o empurrei, mas ele não me provocou mais depois disso. Chegando ao refeitório, peguei uma bandeja e fui até a moça da cozinha que estava sempre de péssimo humor porque ninguém gostava daquela gororoba que ela chamava de comida que mais parecia vômito podre de cachorro. Eu me aproximei dela, peguei minha comida e tentei encontrar um lugar para sentar.

Ser um órfão sem nome que era chamado de monstro sempre me incomodou e isso me isolou das pessoas do orfanado. No começo eu me importava em tentar fazer parte de um grupo, mas depois de algum tempo eu me acostumei a comer sozinho todas as refeições e naquele dia não seria diferente. Procurei uma mesa vazia, mas não encontrei. Então eu fui até a mesa que tinha um grupo pequeno e me sentei. Lentamente, cada uma das crianças saiu para comer em outro lugar e lá estava eu abandonado. Sozinho. Assim tinha sido a minha vida até então. Logo que terminamos o café, fomos cuidar das tarefas do dia.

Limpar o salão da igreja era trabalhoso. Ele era grande, tinha vários bancos e eu não sei como era possível que aquele lugar juntasse tanta poeira. Só que naquele dia tinha uma recompensa para quem limpasse mais rápido: quem terminasse sua tarefa primeiro, poderia brincar na praça junto com as outras crianças da vila sob a supervisão do Bispo Tomás. Nesse dia eu dei o melhor de mim para ser o mais rápido e eficiente na limpeza e consegui terminar de lustrar os bancos. Fui correndo até a freira responsável.

– Oi! Eu terminei de limpar os bancos e o chão. – anunciei animado. – Que hora vai ser o passeio?

– Será logo após o almoço. – respondeu a freira friamente. – Vá se limpar e encontre o Bispo Tomás na entrada da igreja às duas da tarde.

Eram raros os momentos que eu sorria de verdade. Eu nunca comi tão rápido e jamais havia ficado tão ansioso até aquele dia. Terminei o almoço, corri para o meu quarto, me arrumei o máximo que eu pude com uma bermuda, suspensórios, sapatos de couro, meias de cano alto e uma camiseta bem limpa. Desci as escadas do orfanato e, ao olhar para a igreja, lá estavam as crianças prontas para ir à praça.

O Bispo ainda não havia chego e algumas freiras estavam dando instruções para que nos comportássemos. Era óbvio que ninguém ia fazer o que elas diziam, mas era o trabalho delas ao menos tentar. Depois de alguns minutos o Bispo Tomás e sua batina preta impecável com detalhes em branco e dourado se aproximou com a cara de bravo que ele exibia o tempo todo. Ele só ficava feliz quando levava alguém para a detenção e, ao dizer alguém, eu estou falando de mim.

– Meninos e meninas, por favor, me acompanhem em silêncio até a praça. Teremos um dia prazeroso na cidade. – disse Tomás olhando em nossos olhos.

Era complicado andar até lá. As pessoas nas ruas olhavam para nós. Muitas sentiam pena, outras achavam que era uma bênção ver crianças na casa de Deus. Eu aposto qualquer coisa que nenhuma delas gostaria de passar uma semana vivendo a vida que nós vivíamos. Chegando na praça, nós nos dispersamos e, as crianças que não me conheciam, vieram brincar comigo. Elas ficaram surpresas com os meus olhos cinzentos e algumas acharam eles bonitos. Então outra coisa estranha aconteceu: uma menina tropeçou e ia machucar a cabeça com a queda.

– NÃO! – eu gritei.

A menina parou no ar e meus olhos brilharam como as chamas de uma lareira. Eu movi meus braços e ela ficou de pé. Eu a salvei, mas os adultos ficaram com medo de mim, eu ouvi que alguns dos colegas do orfanato me chamaram de monstro. O Bispo Tomás se aproximou, me pegou pela orelha e começou a me arrastar.

– É hora de voltar. Todos vocês, sigam-me!

Eu só conseguia chorar porque eu sabia o que estava por vir: aquela sala fria de novo.

Ele nos levou para um porão e nos trancou lá. Aquilo era a punição que o Bispo nos dava. Algumas crianças tentaram me bater lá dentro, mas eu consegui me esconder entre alguns barris até que elas desistiram de me pegar. Não sei quanto tempo passou, mas começamos a ouvir barulhos do lado de fora. Pessoas caindo, coisas se chocando contra a madeira e depois de alguns minutos de gemidos de dor ouvimos um disparo estridente. Momentos depois o alçapão onde estávamos presos se abriu e meus colegas correram para sair de lá. Assustado, eu continuei escondido.

Ouvi alguns passos dentro do porão e avistei uma mulher que estava com uma blusa longa de couro, um capuz e um par de manoplas. Ela era bonita e parecia procurar alguma coisa quando me encontrou. Eu me afastei até encostar em uma parede enquanto ela começou a falar com um sotaque estranho.

– Não precisa ter medo. Eu vim te tirar daqui.

– Não… as crianças têm medo de mim porque eu sou diferente.

A mulher encostou em uma pedra que se iluminou como uma tocha.

– Garotinho, eu também sou diferente. Me chamo Helene. Qual é o seu nome?

Surpreso com o que ela tinha feito, eu olhei para ela com lágrimas no rosto e respondi com dificuldade.

– Eu não tenho nome… As crianças me chamam de monstro e o Bispo não gosta de mim.

Ela parecia um pouco preocupada comigo e ficou quieta por um instante. Ela tirou o capuz revelando seus cabelos curtos e seus olhos castanhos, estendeu a mão para mim e eu segurei a mão dela. Enquanto caminhávamos para fora do porão, todos os momentos que vivi dentro da igreja e do orfanato me fizeram pensar que aquele lugar não era santo como as pessoas julgava ser. Os corpos no chão estavam desacordados ou mortos, mas não fazia muita diferença para mim. Eu parei de andar no meio do salão e disse para Helene.

– Espera… eu… preciso fazer uma coisa.

Instintivamente juntei as minhas mãos em forma de leque. Meus olhos brilharam de novo como lava e de minha pele começou sair fumaça. Na ponta dos meus dedos, labaredas de fogo se formaram e eu comecei a incendiar a igreja. Helene ficou impressionada com as minhas capacidades e quando tudo estava em chamas, eu caminhei até ela, segurei sua mão novamente e fomos embora. Naquele dia ela me deu um nome: Magnus Flamme. Helene cuida de mim e eu dela. Ela me ensinou a lutar e manipular a magia. Ainda que não tivéssemos laço de sangue, ela me tratava como seu filho e por causa de Helene, eu não estou mais sozinho. Agora o nome que me foi dado um dia será temido por aqueles que abusam de quem não pode lutar por si mesmo.

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