Laços além da ficção

O RPG na minha vida tem um papel muito especial porque foi um divisor de águas em diversos aspectos. Narrar e jogar mesas de RPG me fez evoluir em alguns aspectos e também me ajudou a prestar atenção nos detalhes das situações do cotidiano. Isso simplificou a maneira que eu encontro uma solução para os problemas diários além do fato de que resolver os problemas do jogo junto com meus amigos me fez criar laços mais fortes com cada um deles.

É uma coisa bastante simbiótica os laços que o RPG cria entre as pessoas porque parece que o grupo se mantém unido dentro e fora de mesa. A pessoa que entra na frente de uma espada para te salvar durante o jogo é a mesma que vai te emprestar o ombro para que você desabafe sobre algum problema que está te incomodando. Aquele amigo criativo que resolve o problema na lábia pode te abrir os olhos para algo no qual você é verdadeiramente bom. Uma vez eu ouvi que o RPG é um estilo de vida e eu acredito ainda mais nisso a cada sessão de jogo.

Em um evento que eu fui há alguns anos eu conheci um casal que se conheceu jogando RPG. Ambos contaram suas experiências com este passatempo e me fizeram enxergar que talvez o RPG de mesa seja mesmo um estilo de vida porque boa parte do nosso dia a dia pode ser visto em mesas de RPG sem qualquer dificuldade e, dependendo do cenário no qual o jogo se passa, algumas coisas da nossa realidade são exponencialmente mais graves e mais difíceis de lidar e controlar. Geralmente isso torna as coisas mais difíceis e mais perigosas durante o jogo, ao mesmo tempo que na vida real se torna mais fácil de se resolver.

No meu cenário medieval existe uma cidade controlada por uma cúpula cujo nome é Trindade. Nela, os líderes representam as três maiores instituições da região que são a Igreja, representada por um Sumo Sacerdote ou Suma Sacerdotisa, o Exército, que é representado por um ou uma General, Marechal ou Almirante e a Academia Arcana, que é representada ou pelo próprio Reitor ou pelo conjurador mais poderoso da região em questão. Quando eu criei esta região deste mundo, eu pensei em uma conversa que eu tive com alguns amigos meus e eu acho que eu nunca falei isso diretamente para cada um deles. Um deles frequenta uma igreja, o outro é um pouco mais estourado e eu sou aquele que vive de cara nos livros. Nós demoramos bastante tempo para tomar uma decisão, mas chegamos a um acordo sobre uma ação em uma cena específica da mesa. Desde então, quando algo me incomoda, eu falo com eles.

Existe também uma amiga que eu fiz jogando RPG. Ela sempre foi gentil, educada bem-humorada, inteligente, sincera e focada assim como a maioria de seus personagens. É bastante interessante a amizade que temos porque, ainda que não fiquemos o dia todo conversando, sabemos que podemos contar um com o outro independente do que acontecer. Ela sabe como aconselhar alguém, ela é uma excelente ouvinte e costuma ter ideias tão amplas em relação a tudo que sempre que eu preciso de inspiração, eu falo com ela sobre qualquer coisa e as ideias surgem em um passe de mágica. É uma coisa que eu me questiono de vez em quando: os laços que formamos durante a vida moldam nosso caráter ou revelam que realmente somos em cada situação? Talvez o tempo me traga a resposta algum dia.

Da mesma forma que são criados, muitas vezes os laços são rompidos. Algumas vezes por causa do tempo, outras por causas de problemas e algumas vezes simplesmente pela distância que se cria emocionalmente entre as pessoas. Quantas pessoas não se sentem sozinhas ainda que estejam cercadas de outras pessoas? Ainda outras se sentem acompanhadas tendo um círculo pequeno de amigos com os quais sabe que podem contar. Eu me encaixo no segundo grupo. Tenho poucos amigos com quem conto de verdade e o número de pessoas que realmente conhece meus segredos é menor ainda. Atualmente é mais fácil eu me abrir com as pessoas que vivem uma realidade parecida com a minha ainda que eu converse abertamente com qualquer um que seja educado comigo.

Há estilos de vida que fazem com que os laços formados se tornem ainda mais significativos e vou usar mais alguns exemplos de RPG porque é algo que eu respiro todos os dias há alguns anos. Eu criei um personagem, um paladino, que havia perdido tudo o que ele amava. Os pais morreram quando criança, seu irmão foi morto por um vampiro e seus colegas de infantaria também foram eliminados por mortos-vivos. Tudo o que lhe restava era a própria fé e com isso ele conseguiu superar os problemas. Desde então eu creio que ainda que laços sejam rompidos, sempre será possível construir novos porque a vida segue sempre adiante.

Algumas pessoas vão entrar na sua vida e permanecerão por algum tempo, algumas poucas pessoas permanecerão por décadas ou pelo resto de sua vida e ainda outras serão tão passageiras quanto uma brisa refrescante em uma tarde de primavera. Nas mesas de RPG acontece o mesmo tanto com personagens quanto com jogadores e ainda mais com os NPC’s que existem em cada canto de um cenário. Se parar para pensar, a vida é um grande RPG de mesa e, independente do nível que esteja a sua ficha, você sempre pode dar um jeito de resolver um problema uma vez que compreenda que não está sozinho.

Laços vem e vão. Cuide de todas as pessoas ao seu redor com carinho e tenha em mente que ainda que alguém pareça distante, uma mensagem pode resolver o problema da saudade, um convite pode tornar a tarde de alguém mais agradável, uma conversa pode aliviar as tensões do dia e isso pode fazer com que você crie laços novos com outras pessoas. Esteja aberto a novas e antigas amizades.

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