Jogatina perigosa

É um dia de festa na taverna do Coringa Descartado. A taverna leva esse nome porque sempre que um bardo faz uma apresentação ruim, o taverneiro que estiver responsável no dia expulsa o artista do local e contrata um novo para se apresentar no próximo dia. Estranhamente, um bardo que veio de uma vila que fica a leste de Luária, capital do Reino Argênteo, ainda não foi expulso. No entanto, ele não sob os holofotes hoje. Em um canto escuro, algumas pessoas acompanham dois apostadores.

Na mesa de jogos, há um homem usando roupas de linho e armadura de couro batido. Até onde pode se observar, há um par de adagas em um coldre preso em suas pernas e uma rapieira embainhada em seu cinto. O olhar atento e o sorriso sacana de um jogador assíduo, observa os dados sendo rolados pelo adversário do outro lado da mesa que, por sua vez, usa roupas nobres de seda bordadas a fios de ouro, um anel de prata com um rubi encrustado no qual o brasão de sua casa foi cuidadosamente esculpido. Ele pede para que a mulher que o acompanha assopre os dados para lhe dar sorte e, por fim, os lança sobre a mesa fazendo com que a tensão pelo resultado aumente.

O som dos dados batendo na madeira enquanto rolam deixa os espectadores demonstrem um misto de excitação e temor por conta do que pode acontecer em seguida. Não é um jogo complicado de compreender: ambos os lados rolam os dados e, aquele que conseguir vencer uma melhor de três, leva o dinheiro apostado. Esta é a primeira rodada do jogo e o resultado é a vitória do nobre.

– Como é possível um Almofadinha saber rolar dados tão bem? – diz o salteador descontente.

– Demétrio, meu caro, aprendemos muito mais do que apenas os bons modos perante a corte. – responde o homem de vestes nobres.

– Chega de conversa e vamos voltar ao que interessa, Hélio.

Mais uma vez eles preparam os dados para rolar. Hélio, o nobre, e Demétrio, o salteador, se encaram em silêncio enquanto se preparam para começar a segunda rodada do jogo. Os amigos de Demétrio olham para o nobre enquanto colocam as mãos em suas rapieiras ao passo que a mulher e o guarda ao lado do nobre começam a fazer movimentos sutis com as mãos. Quando a tensão está próxima do limite entre os aliados dos jogadores, o resultado é a favor do salteador que comemora a vitória pedindo mais um copo de rum.

– Ainda dá tempo de desistir, Almofadinha. Você logo vai perder as calças e eu tô precisando de roupas novas. – afirma Demétrio com sarcasmo.

– Deixe de ser ridículo, plebeu. Tanto você quanto eu ainda temos chances iguais de sairmos vitoriosos deste jogo por meio do qual a sua estirpe porcamente se diverte. Seja grato por minha boa vontade, pois será tudo o que terá de mim esta noite.

Demétrio bate na mesa com raiva. Um apostador experiente como ele jamais aceitaria ser desafiado por um nobre que mal consegue sobreviver por conta própria. Com uma mão apoiada na mesa e outra com o dedo apontado para o rosto de Hélio, ele respira fundo para controlar suas emoções antes de dizer qualquer coisa.

– Escuta aqui, desgraçado. Eu dobro a aposta porque eu sei que a sorte sempre está do meu lado. Então fecha a sua boca e rola esses dados.

Intimidado e trêmulo por causa da postura de Demétrio, Hélio joga os dados o mais rápido possível enquanto Demétrio, ainda com a mão sobre a mesa, faz um movimento quase imperceptível e também rola alguns dados. O guarda de Hélio desembainha sua espada e os amigos de Demétrio sacam as rapieiras porque o resultado foi, novamente, a favor do salteador que olha para as pessoas armadas com um sorriso no rosto e volta seu olhar para o nobre perdedor com desdém.

– É, Almofadinha, eu ganhei de novo. Agora, pega toda sua boa vontade e me entrega junto com o ouro que você acabou de perder, otário!

– Eu não pagarei nada a alguém que, certamente, viciou os dados. – retruca o nobre enquanto se levanta devagar.

– Olha só… ele tá me chamando de trapaceiro. Pelo menos eu admito que sou, mas você e esses seus capachos vivem do dinheiro que roubam do povo por meio dos impostos. Quem cobra impostos pela quantidade de membros da família sabendo que o rei tem mais filhos bastardos do que esta taverna tem pulgas?

O sangue do nobre Hélio ferve e ele ataca Demétrio dando início a uma briga dentro da taverna. Enquanto todos ali estão preocupados em socar e chutar uns aos outros, a mulher que estava ao lado de Hélio dá alguns passos para trás, fala algumas palavras em um idioma estranho e pega as coisas que estavam na mesa: as algibeiras de Hélio e de Demétrio, os dados que estavam dispostos na mesa e uma taça de cristal com um pouco de vinho.

Ela, ainda escondida, sussurra mais algumas coisas. As pessoas que estavam brigando começam a ficar sonolentas e caem adormecidas no meio do salão da taverna. Ela troca olhares com o bardo que pisca um olho para ela enquanto enquanto anuncia uma breve pausa na apresentação para que todos comam e bebam. Bóris de Brisalua, se aproxima de sua colega.

– Tessa! Qual foi o resultado das apostas de hoje?

– Meu querido, tivemos dois idiotas jogando dados e brigando para pagar a aposta. Não entendo porque apostadores precisam brigar em vez de manterem seus acordos iniciais. Agora, e quanto nossa aposta Bóris?

Ele olha para os lados, a puxa para perto e fala em seu ouvido.

– Tessa, você perdeu ao dizer que eles brigariam entre si apostando que o nobre seria atacado, mas foi ele quem atacou. Agora você pode entregar o dinheiro que eu vi aquela mãozinha amiga pegar daqueles sacos murchos.

Ele agradece quando ela entrega as algibeiras.

– Minha música pode despertar coisas que as pessoas realmente querem fazer.

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