A Jornada do Herói em mesas de RPG

Toda história possui um começo, um meio e um fim. Existe um modelo para que essas partes se encaixem de forma coesa em uma narrativa. Joseph Campbell elencou em 17 passos em sua obra e, posteriormente, Christopher Vogler sintetizou o modelo em 12 etapas que juntas formam a Jornada do Herói.

Cada herói tem sua história de origem. A experiência que possui no presente surgiu em eventos que forjaram seu caráter, moldaram sua personalidade e fizeram dele alguém reconhecido pela capacidade de lutar contra aquilo que perturba a ordem natural da realidade na qual ele, ou ela, existe.

Então, quer saber como grandes histórias são desenvolvidas e como inserir isso nos mundos que você rabiscar? No final eu explico como usar a Jornada do Herói em mesas de RPG. Então vamos nessa que vai ser bom à beça!

1. O mundo comum

Ambientação inicial que introduz o herói descrevendo como e onde vive, com quem se relaciona e a forma como a vida do personagem pode ser comparada com a de qualquer pessoa.

Este é o momento no qual somos introduzidos ao mundo no qual o herói está inserido ao passo que entendemos quais são os seus valores, quais são as coisas das quais ele gosta e não gosta, além de criarmos empatia com a sua realidade.

2. O chamado à aventura

O herói se depara com o conflito que o tira da zona de conforto, um desafio que o obrigue a experimentar coisas novas, ou seja, algo importante para o herói é colocado em grave perigo.

Aqui alguma coisa sai da realidade do herói e começa a afetar diretamente a vida que ele tem levado até o momento. Pode ser que alguém importante foi raptado, as pessoas com quem ele se importa estão com sérios problemas ou alguém lhe oferece algo com o qual o herói sempre sonhou.

3. Recusa ao chamado

Medos, hesitações e conflitos internos que fazem com que o herói negue a aventura ao mesmo tempo que tenta se convencer de que não se importa com o problema. Ainda que a tentação seja grande, o herói permanece onde está ainda que o conflito o incomode.

Sabe aquela coisa de “sou apenas humano e não há o que eu possa fazer”? É exatamente esse o espírito desta etapa. Mesmo com uma grande oportunidade, o herói vai se achar incapaz de encarar o desafio. Então ele se afasta do problema e tenta voltar para sua vida normal.

4. Encontro com mentor

O herói precisa de um empurrãozinho e o mentor dará o que for necessário para que o herói encare o desafio da aventura. O tal mentor pode ser um encontro com uma criatura sobrenatural, um tempo de treinamento, conselhos e encorajamento de alguém mais experiente, algo que conceda poderes ao herói ou um objeto senciente que auxiliará o herói na jornada.

O Link de Legend of Zelda quando recebe Master Sword ou a Moana quando percebe que precisa deixar a ilha para salvar seu povo são exemplos desta fase da jornada. Após o encontro, o herói ganha confiança para resolver o conflito e enfrentar os desafios.

5. Travessia do primeiro limiar

O herói dá os primeiros passos para fora de sua zona de conforto para explorar o desconhecido. Lugares novos, alguma habilidade é testada ou algum segredo, ou pista, lhe é revelado para que prossiga com a sua missão.

As habilidades do herói são colocadas à prova pela primeira vez. É um desafio no qual ele pode, ou não, lidar sozinho e o início verdadeiro de sua aventura em busca da resolução do conflito que o tirou de casa.

6. Provas, aliados e inimigos

O herói precisa superar desafios, contratempos e obstáculos. Nesta etapa ele aprende em quem pode ou não confiar, compreende mais um pouco da raiz do conflito no qual está envolvido e sua personalidade é mais bem explorada demonstrando o início de sua evolução e desenvolvimento.

Algumas pessoas começam a aparecer para causar problemas ao nosso herói. Ladrões de estrada, brigões de taverna, um grupo enviado para eliminar a pessoa que se livrou do problema anterior. Talvez os perigos estejam além das habilidades do herói que precisa ser salvo por seus novos aliados.

7. Aproximação da caverna secreta

Uma vez superados os primeiros desafios, o herói faz uma pausa em algum local seguro. Os questionamentos quanto a sua capacidade de cumprir seus objetivos voltam em forma de medos e inseguranças. Estes momentos também servem para que o herói se prepare melhor para o desafio final.

Conversando com os seus novos aliados sobre tudo o que passou, o herói encara seus medos para continuar até o desafio final que o fez passar por todos os obstáculos até o momento. Após o descanso e a conversa com os aliados, a jornada continua.

8. Provação

Depois de encerrado o descanso ou a preparação, o herói encara o desafio mais complicado que já encarou até agora. Durante este desafio, o herói deverá usar tudo o que aprendeu em sua jornada e isso revela toda a evolução dele.

No primeiro filme do Thor, quando o Destruidor chega na cidade na qual ele, seus novos amigos e antigos aliados se encontram, é um dos milhares de exemplos desta etapa. É a hora que tudo o que o herói aprimorou deve ser aplicado para superar os perigos que estão colocando todos em risco.

9. Recompensa

Agora o herói é reconhecido pelos seus feitos e considerado verdadeiramente forte ao receber sua recompensa, conquistar o objetivo ou realizar algo de grande valor pessoal antes de retornar para casa.

Ainda no caso do Thor, é quando ele recupera o Mjölnir depois de ter seus poderes tomados por um encantamento lançado por Odin que também o baniu de Asgard e o enviou à Terra no filme.

10. O caminho de volta

Aqui o herói passa por mais um momento de reflexão. Ele precisa escolher entre a realização de um objetivo pessoal ou a luta por um bem coletivo maior. Logo após a escolha, sua missão está cumprida.

O problema inicial que o herói estava encarando é resolvido, mas uma escolha precisa ser feita. Ele pode ficar onde está por ter resolvido a questão que lhe incomodava ou continuar lutando e dar um fim ao verdadeiro causador do problema a fim de não permitir que outras pessoas precisem fazer o que ele fez.

11. Ressurreição

Quando tudo parece finalmente resolvido, o inimigo verdadeiro surge ou retorna para se vingar do herói que conhece o poder real de seu adversário. Nesta etapa, tudo o que foi conquistado é colocado em risco de novo incluindo o mundo comum do herói. Caso o herói perca, todos perdem. O inimigo é finalmente derrotado e o herói pode decidir o que fará com a sua vida de agora em diante.

É a famosa batalha final. Em um jogo de Poker seria o All-in, que é o momento de apostar tudo aceitando todos os riscos: um ultimato. Caso o herói consiga superar o desafio, a paz pela qual tem lutado é alcançada e, se tudo der errado, toda a sua jornada terá sido em vão.

12. O retorno com o elixir

Agora, com o conflito resolvido, o herói foi bem-sucedido. Todos os inimigos são punidos, ninguém mais questiona as habilidades do herói e a vida dele jamais será como foi anteriormente.

Este fim pode ser mais um momento de reflexão, a entrega de uma nova recompensa, ou pode ser um gancho para um novo arco de sua trajetória.

A Jornada do Herói no RPG

Agora que você sabe quais são as etapas da Jornada do Herói, deve estar se perguntando: “Bruno, como eu vou usar isso nas minhas mesas de RPG?”. Aqui estão algumas coisas que eu mesmo uso para escrever as mesas de RPG que narro e que também recomendo para os meus jogadores

Jogadores

Seu narrador vai te pedir uma história de origem. O que levou seu personagem até o momento no qual a aventura começa. Segundo a estrutura da Jornada do Herói, você pode utilizar do Passo 1 ao Passo 4. Com isso, você vai explicar para o narrador de onde o personagem vem, quem são as pessoas importantes para ele, qual é o problema que o tirou de seu local de origem e quem, ou o que, o motivou a se aventurar pelo mundo.

Narradores

Você pode desenvolver a aventura para os jogadores do Passo 5 ao Passo 12. As vidas dos personagens podem estar sendo afetadas por um inimigo em comum, mas de formas diferentes em cada localidade. Caso comece a aventura no Passo 5 com um problema comum para todos os personagens, os laços entre eles começarão a surgir por meio da abordagem que cada um usar para resolver os problemas.

Usando este modelo de narrativa, eu aposto que qualquer coisa que você escrever será impactante para as pessoas. Para mesas de RPG, aproveite esses elementos para desenvolver os personagens dos jogadores e os antagonistas da trama. Agora que sabe como fazer, é hora de rabiscar!

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