O Guardião Dourado

Há muito tempo no continente de Aylin, havia um império no Arquipélago de Draak regido por um conselho de anciões chamado O Covil. Esse conselho possuía grande influência em todo o império, mas mantinha suas relações políticas isoladas de outros povos. Mesmo assim eles cresceram e prosperaram internamente por séculos.

Certa vez, um guarda de baixa patente estava fazendo seu turno de vigília quando sentiu o cheiro pútrido e doce de necrose perto do portão leste que dá acesso ao mercado de Rama, a capital do império. Ao se aproximar do local de onde vinha o cheiro, ele se deparou com um corpo em estágio avançado de decomposição. O cadáver emanava uma forte energia necrótica. Sem pensar duas vezes, o jovem soldado pegou sua trombeta e anunciou para todos os outros companheiros de serviço que algo de errado, e profano, estava se propagando pelo império.

Durante alguns dias os militares da cidade consideraram a denúncia como um evento isolado, mas outros corpos apareceram e estava cada vez mais difícil manter os crimes em segredo até que um dos generais, Khandra, decidiu convocar uma audiência com O Covil para discutir a melhor forma de lidar com os eventos recentes.

Era uma manhã normal para a população de Rama. Comerciantes anunciando seus produtos, guardas fazendo patrulha, crianças correndo pelas ruas da cidade, bardos contando histórias sobre grandes heróis, charlatões enganando tolos e batedores de carteiras atentos para roubar alguém distraído com alguma negociação que não levaria a nada. Na cúpula da cidade, os anciões do Covil estavam discutindo o que deveria ser feito em relação aos atos profanos que aconteceram na cidade. Alguns diziam que deveriam decretar um estado de alerta para todo o império, outros queriam manter os crimes em sigilo para não causar pânico à população. Os militares consideravam um ato de guerra. No entanto, havia alguém calado.

Um homem de vestes brancas e douradas, escamas espessas que reluziam como ouro e olhos amarelados vívidos observava tudo. Ele sentia o desespero tomar a sala, mas permanecia em silêncio e resoluto enquanto apoiava seu cetro ao lado de sua cadeira. Enquanto todos discutiam, ele refletia sobre qual seria a melhor abordagem considerando uma forma sutil de resolver a situação sem causar pânico à população do império. Finalmente, após traçar um plano de ação, ele se levantou, bateu seu cajado no chão e um silêncio mórbido se fez na sala de reuniões.

– Conselheiros, séculos atrás nosso povo possuía grande influência com os demais povos e, se as suspeitas forem verídicas, necessitaremos de auxílio externo para lidar com esta situação caótica. Proponho que façamos expedições diplomáticas a fim de conseguir ajuda de outros reinos, impérios e coalizões para reatar antigos laços de amizade.

Os demais anciões ouvem as palavras do homem que estava em silêncio. Os laços com os demais reinos haviam sido cortados há muito tempo e não havia garantia alguma de que seriam solícitos e prestativos para auxiliar a causa de Draak. Ainda assim, ele continuou sua fala com bastante convicção.

– Se temem pela rejeição, eu mesmo liderarei os expedicionários rumo ao continente.

– Ancião Baruk, o que lhe dá tanta certeza de que seremos ajudados por eles? O que o leva a crer que ouvirão nossos apelos? – indaga o General Khandra.

– General, tenho plena certeza de que eles estão com problemas parecidos e precisaremos nos unir para superar esta provação.

A reunião se encerra depois de algum tempo. Os anciões vão para suas salas e Baruk chega em sua mesa para assinar alguns pergaminhos. Antes de se sentar, ele olha pela janela e vê o povo da cidade vivendo normalmente. Desde que entrou para o conselho, Baruk jurou dar sua vida pelo povo. Mal sabia ele que isso realmente seria necessário, pois uma névoa escureceu o céu e começou a tomar toda a capital.

Do lado de fora da Cúpula do Covil, as pessoas corriam em busca de abrigo. Baruk chama seu aprendiz, mas não ouve uma resposta. Ao abrir a porta, ele estava desacordado e começando a ter seu corpo consumido pela névoa. Então, o ancião se teleporta para o centro do mercado e percebe que a situação é ainda mais caótica do que imaginava. Não apenas as pessoas, mas todas as formas de vida estavam perecendo aos poucos. Desesperado para manter a segurança de seu povo, ele começa a moldar o tecido arcano ao seu redor, mas é interrompido por uma voz que lhe causou calafrios.

– Ouça, irmão, eu jurei que retornaria para reestabelecer a ordem e quebrar os ciclos que regem os planos existenciais. Esta é apenas uma amostra do que está por vir. Não há mais campeões para me deter. No entanto, se ainda há forças em ti, tente me impedir, mas acho que tens problemas maiores para resolver.

A voz desaparece da mesma forma que surgiu. Baruk reconhece que terá que agir como agira no passado. Sozinho e sem calcular os riscos, ele busca seus componentes mágicos, equipamento e rações para viagem, evoca seu cetro e corre em direção ao porto em busca de um barco pequeno, resistente e veloz o suficiente para chegar ao continente o mais rápido possível. Durante todo o caminho, os calafrios se tornavam mais intensos até que ele respondeu a voz que o atormentou.

– No passado eu tive esperanças de que bani-lo seria o suficiente para manter o equilíbrio dos ciclos em paz, meu irmão. Todavia, eu estava enganado quanto a possibilidade de redenção para ti. Não permitirei que destruas a paz de Aylin e a harmonia entre povos, pois, uma vez mais, reunirei campeões para lhe deter. Guarde minhas palavras: você será derrotado de uma vez por todas, Krivoc!

Determinado e com um propósito pelo qual daria sua vida, Baruk deixa seus trajes nobres e veste suas antigas roupas de viajante. Ele parte em seu barco rumo ao continente em busca de novos campeões com apenas dois objetivos: deter os avanços das forças de Krivoc, o Primeiro Necromante, e curar a praga lançada sobre os povos de toda Ayla.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑