Desafios diários superados com jogos

Quando eu era pequeno, meu primeiro presente memorável foi um Super Nintendo. Meus pais sempre jogavam comigo. Minha mãe não me deixava ganhar se eu não fosse melhor do que ela enquanto meu pai me ensinava o valor de vencer com dignidade. O valor da vitória e o peso da derrota são desafios diários com os quais as pessoas precisam lidar e, para muitos como eu, os jogos foram, e ainda são, uma válvula de escape para os problemas do dia a dia.

Eu me lembro de uma vez que eu fui jogar na casa de um amigo de infância e passei algumas horas lá. Nem ele nem eu tínhamos muitos amigos na época por motivos diferentes: eu havia acabado de me mudar para um bairro novo e ele sempre foi muito retraído e reservado. Enquanto estávamos ali com os controles em mãos aumentando a pontuação máxima do jogo, não haviam preocupações além do próprio jogo. Estávamos imersos naquela realidade e unidos por um objetivo em comum que era passar para o próximo nível. Foram dias divertidos que me ensinaram que juntos somos mais fortes. “Que clichê, hein Bruno?”. Não deixa de ser uma verdade!

Depois dessa fase de dividir o sofá para jogar alguma coisa, o mundo dos MMO’s apareceu para mim e foi o momento no qual que pensei “quero isso para o resto da vida”. Perfect World e MU Online foram os jogos que eu mais joguei durante minha adolescência. Esses jogos definiram muito a forma que eu lido com os problemas do meu dia a dia. Em Perfect World eu tinha que conquistar os níveis mais altos para liberar mais poderes e lutar guerras de territórios que eram disputados pelas guildas do servidor. No continente de MU, eu tinha que lidar com hordas de criaturas vis para atingir o nível máximo para trazer novamente o personagem para o nível mais baixo com o mesmo nível de poder e elevá-lo ao topo novamente. Toda a exploração de Perfect World e os combates insanos de MU me fizeram esquecer problemas da escola além de outras questões pessoais. Posso dizer que eu superei esses problemas por causa desses jogos.

Ainda na minha adolescência, meu professor de inglês me apresentou o livro Lobisomem, o Apocalipse da editora White Wolf. O cenário de Mundo das Trevas é, de longe, o meu favorito e talvez meu professor tenha influência nisso. Uma realidade paralela ao mundo comum que nós conhecemos. Criaturas que acreditamos ser mitos, lendas e obras de ficção controlam a realidade através de uma sociedade que se mistura com a nossa em todos os níveis, mas que possuem suas próprias regras. Vampiros, Lobisomens, Magos, Caçadores de Monstros e tantas outras coisas neste cenário que mistura nossa realidade com crônicas de horror pessoal é fascinante para mim. Foi lendo sobre este universo que eu aprendi cedo que não há vilões ou heróis porque somos apenas pessoas lutando para conquistar algum objetivo pessoal.

Pode parecer estranho, mas apesar de Mundo das Trevas ter sido um cenário que eu tive contato muito cedo, o primeiro RPG de mesa que eu joguei foi The Shotgun Diaries que é um sistema de RPG simples em um cenário de apocalipse zumbi. Tudo o que você precisa é do nome do personagem, quatro dados de seis faces e escolher dentre os arquétipos disponíveis para jogo. Só rola os dados quando puder agir ou então o narrador decide o desfecho. Gerenciar recursos, lidar com o medo, procurar abrigo e chegar vivo ao final. Não há tempo para discutir regras ou planos, nem desenvolver um personagem porque o que importa é sobreviver acima de tudo. Se tem algo que este jogo ensina é o valor do trabalho em equipe e o desafio de lidar com pessoas diferentes de você.

No entanto, eu acho que a maior lição que eu tirei com o mundo dos jogos foi narrando RPG. Foi aí que eu aprendi a ouvir as pessoas, aceitar ideias, valorizar o esforço que cada jogador teve para criar seu personagem e não existe coisa melhor para mim como RPGista do que uma boa história para contar junto com outras pessoas que me ajudam a definir o destino das coisas. Tudo o que eu preciso fazer é criar a situação e permitir que eles resolvam da maneira que acharem melhor. Alguns evitam problemas, outros causam problemas e ainda outros resolvem os problemas. No final da sessão, o que importa é que os jogadores tenham se divertido e isso é o que mais me inspira a continuar contando histórias, escrevendo cenas e desenvolvendo mecânicas para tornar as mesas de RPG cada vez mais divertidas.

Independente do que as pessoas pensam sobre jogos, ser um jogador é algo que vai além de apenas um hobby. Hoje em dia já é possível dizer que jogar é um estilo de vida de muitas pessoas ao redor do mundo. A tendência é isso continuar sendo alavancado exponencialmente com o passar dos anos como tem sido desde o lançamento dos fliperamas. Os laços formados com as pessoas que jogam contigo são mais fortes do que com quem não está imerso naquele mundo. A euforia por passar de nível, a raiva por ser derrotado pelo último chefe da última parte de uma área específica e a satisfação e o alívio por superar os desafios da fase e coletar a recompensa da missão. Jogar é bom, mas jogar com as pessoas que você ama é ainda melhor.

Eu cresci aprendendo coisas e superando desafios diários com jogos. Meus pais jogavam comigo, meus amigos jogam comigo e espero que um dia, você que esteja lendo, jogue algo comigo também ou que encontre pessoas para jogar algo que vocês gostem. Os jogos possuem um papel fundamental na nossa sociedade hoje e não há como negar que, ainda que exista uma parcela a comunidade que seja tóxica, este hobby é capaz de unir pessoas com laços tão significativos que eu ouso dizer que podem mudar a vida e a saúde de muitos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑