O bardo de Brisalua

Em Brisalua, uma vila de comerciantes, algumas mulheres correm para pegar panos limpos e bacias com água. Elas entram apressadas em uma casa simples enquanto uma mulher grita de dor ao passo que outra mulher fala em alto e bom tom.

– Empurra!

Do lado de fora da casa, alguns homens trazem canecos para um amigo que está preocupado. Não é todo dia que algo tão importante acontece e, como é a primeira vez que ele está passando por este processo, seus companheiros dizem que é normal se sentir assim e que, em breve, ele sorrirá e comemorará como sempre fez.

Algum tempo depois não se ouve mais gritos. A pressa das mulheres passa e o homem que estava preocupado agora caminha em direção a casa com um olhar de espanto. Todas as mulheres estão sorrindo de alívio. Os amigos do homem o encorajam a entrar e ver o que o aguarda do lado de dentro de sua casa. Ao entrar no quarto, o homem se surpreende ao ver duas pessoas em vez de uma.

– Ei… diga “Oi!” ao papai! – diz Lia com ternura.

A criança se aconchega ainda mais nos braços de sua mãe que, por sua vez, ao olhar para o lado, vê algo que aconteceu poucas vezes em todos os anos de seu casamento: seu esposo chorando ao ver o nascimento de seu primeiro filho também a emociona.

– E-ele é enorme! Ele tem os seus olhos. – diz o jovem pai. – Estou certo de que ele será forte como o eu.

– Sim, Tom… Ele herdou sua força.

Na porta, uma das anciãs pergunta ao jovem casal.

– Vocês já escolheram um nome para o menino?

– Bóris! – responde o casal em uníssono.

Assim veio ao mundo o pequeno Bóris, um filho de comerciantes que contavam histórias para o menino sobre viagens, sobre seus avós e sobre lendas e baladas que ouviam dos aventureiros e viajantes que passavam pelo reino em busca de riquezas e glória. Por causa dessas histórias, Bóris cresceu imaginando como seria viver uma vida de aventuras e se tornar o grande herói de suas próprias histórias.

Anos mais tarde, Bóris havia acabado de chegar da rua todo sujo por causa do dia divertido com os amigos enquanto a sua mãe estava cozinhando um ensopado com alguns legumes que ela colheu da horta de sua casa. Ela olha para o menino e ele entende que precisa se lavar. Para ele foi mais um dia comum porque ele correu, contou histórias e ganhou algumas moedas por fazer algumas pessoas rirem e se emocionarem com o que ele tinha para dizer. Isso chegou ao conhecimento de seus pais que decidiram lhe dar um presente que mudaria tudo em sua vida.

Após o jantar, Tom e Lia começam a falar algo que chama a atenção do menino.

– Lia, meu amor, você ouviu falar que há um jovem muito esperto na vila que anda contando histórias em troca de algumas moedas de cobre?

– Sim… alguns jovens me disseram também que ele sempre consegue sair de confusões por ter uma língua afiada. – expressa Lia com ironia e preocupação.

– Então, eu soube que ele pediu ao bardo local para contar suas histórias na taverna, mas o velho não lhe deu atenção. Você sabe nos dizer o que houve, Bóris?

O menino, que estava apenas observando em silêncio, encara seus pais enquanto pensa no que dizer. Era normal ele se meter em confusão uma vez ou outra, mas um sermão indireto como este? Ele respira fundo e finalmente responde.

– Sabe… ele tinha um negócio feito de madeira como algumas cordas e ele também tinha histórias para contar. Eu pedi para tocar e contar minhas histórias, mas ele me mandou sair de lá e não voltar mais. Por que ele fez isso? Eu só queria contar as histórias que a mamãe me conta antes de eu ir dormir.

Lia olha para Tom ao notar a tristeza na voz da criança, se aproxima do garoto e lhe dá um abraço. O menino se acalma um pouco e enxuga algumas lágrimas dos olhos. A mãe coloca as mãos em seus ombros ao soltá-lo do abraço e sorri.

– Veja, Bóris, as pessoas costumam se apegar as coisas que elas amam e não as deixam nas mãos de qualquer um mesmo que a pessoa prometa tomar cuidado. Agora feche os olhos e só abra quando eu disser. Tudo bem?

O menino assente em concordância e fecha os olhos. Ele ouve o som de algo encostando na madeira da mesa bem a sua frente e se controla para não espiar o que está ali. Então ele ouve uma voz grave e aveludada.

– Ei, contador de histórias, pode abrir os olhos. – fala Tom enquanto abraça Lia.

Os olhos de Bóris nunca haviam brilhado tanto ao ver o negócio de madeira com cordas que ele queria na sua frente. Não era igual ao do bardo da taverna, mas era tão bonito quanto. Ele pega o instrumento, corre e abraça seus pais.

– Eu conversei com seu pai. Vamos te ensinar a escrever e a tocar para que, um dia, suas histórias sejam ouvidas no reino inteiro.

Daquele dia em diante, Bóris continuou escrevendo e contando histórias. Já adulto e famoso nas vilas locais, ele recebeu um convite de um dono de uma taverna da capital do reino para contar suas histórias se tornar ainda mais famoso do que ele já havia se tornado. Lia, preocupada, teme a partida do filho, mas permite que ele vá. Tom, confiante em tudo ensinou ao jovem rapaz, aconselha-o com seriedade.

– Você já é um homem, meu filho. A capital é um lugar perigoso e isso aqui pode te ajudar, mas só use em casos de extrema necessidade.

Tom entrega a Bóris uma rapieira de lâmina fosca e, ao lado de Lia, acompanha Bóris até a entrada de Brisalua, o vilarejo onde moram. O jovem se despede de seus pais e leva seu alaúde para viver suas próprias aventuras, mas isto é uma outra história.

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