Seus personagens são parte de quem você é

Eu narro mesas de RPG há alguns anos para os meus amigos. Muitos desses amigos eu fiz durante as mesas enquanto criávamos histórias juntos e, em cada uma das histórias, haviam personagens. Com o passar do tempo eu notei que todos eles colocavam um pouco de quem são no dia a dia em suas interpretações e isso me fez pensar que sempre que criamos algo o nosso jeitinho de ser está ali de uma forma sutil e as pessoas que leem seus textos, observam suas ilustrações ou ouvem o som maneiro que você sabe tirar de um instrumento, reconhecem que aquilo é seu e passam a te conhecer um pouco mais. Não vou expor meus jogadores, mas vou citar algumas coisas que eu aprendi com eles.

Por alguns anos minhas mesas de RPG eram majoritariamente masculinas. Havia apenas uma jogadora no grupo e, sem dúvidas, é a mais comprometida com as mesas desde a criação dos personagens até as interpretações durante as sessões. Por meio dos personagens que ela criou dentro do meu cenário, eu passei a conhecer mais sobre quem ela é e como ela enxerga o mundo através dos olhos das pessoas as quais ela deu vida em jogo. Um ladino mulherengo, uma maga que fazia o que fosse necessário para ter mais poder arcano, uma clériga que daria a própria vida por um bem maior, um médico que faria tudo pelo bem de sua esposa e uma assassina piedosa que adotou um órfão como seu filho. Claro, muito do que acontece em uma mesa de RPG é ficção e todos os jogadores, inclusive eu, o narrador, temos consciência disso. Foi com isso que eu descobri que por trás de cada personagem havia um pedacinho dela e isso deixava os personagens humanizados.

Outro jogador de velha guarda sempre joga de paladino. Sempre que proponho uma nova aventura ou continuo alguma aventura de onde havia parado, ele resgata um dos seus paladinos para jogar porque ele, no dia a dia, é um exímio paladino. A única exceção é uma bruxa que ele criou com uma temática asiática que ficou sensacional e me fez alterar uma região inteira do meu mundo por conta dos eventos da história dela. Leal, honesto, justo e extremamente carismático. Todas essas são qualidades que ele provou ter. Sempre que alguém precisa da ajuda dele, ele está pronto para ajudar seja com apoio emocional, seja sendo um bom ouvinte ou apenas jogando alguma coisa online para passar o tempo. Com certeza é uma amizade que eu sempre zelarei com muito carinho.

Em mesas de RPG sempre tem o jogador que age como o alívio cômico do grupo e este jogador o faz com maestria. De vez em quando ele força a barra com algumas ações, mas nada que quebre a imersão do grupo. Acho que por ser a pessoa mais bem-humorada que já tive em qualquer mesa, às vezes sinto falta de jogar com ele. Acho que não há ninguém melhor para solucionar problemas com uma ideia criativa e totalmente inesperada como Pó de Girassol. Toda essa criatividade que ele desenvolveu jogando, escrevendo e narrando mesas além da influência de animes que ele consome assiduamente, com certeza é o jogador que mais faz falta quando eu penso em narrar alguma coisa e é um excelente designer gráfico também.

Como contador de histórias, criador de mecânicas e explorador de mundos, eu encontrei alguns jogadores com um estilo de jogo surpreendente. Eles investem boa parte do tempo em interpretação e em discutir os problemas que seus personagens estão enfrentando. Fora da mesa, eles são pessoas focadas em suas atividades e são capazes de mudar de assunto em um curto espaço de tempo. Isso ficou explícito na persona de cada personagem que eles criaram. Ainda assim, sempre vai surgir algum jogador difícil de lidar e isso também revela muito sobre o caráter dele.

Existem jogadores que criam personagens acreditando que no mundo da ficção as ações não terão consequências. Um jogador tentou tocar uma NPC sem o consentimento dela e ela reagiu de forma agressiva. Em outra situação, um jogador discutiu uma regra sem necessidade e acabou quebrando a imersão do grupo. Teve a vez que o personagem de um jogador morreu, ele ficou chateado com o que rolou na sessão e levou para o lado pessoal. Também teve o dia que um jogador brigou por um saque porque ele levou mais dano e acreditava que deveria ficar com a maior parte. Tempos depois eles mostraram ser pessoas assim no dia a dia e isso cooperou para o fim de alguns grupos de RPG dos quais participei.

Tudo isso são experiências minhas com mesas de RPG e acredito que há outros jogadores e narradores que passaram por situações parecidas. Tanto as coisas boas quando as coisas ruins que acontecem, além de nos ensinar uma lição, pode mudar como enxergamos uma pessoa. O mesmo vale para personagens que mudam com o passar do tempo porque aprenderam algo novo ou passaram por algum trauma durante a narrativa. Algumas pessoas mudam enquanto que outras pessoas continuam sendo as mesmas. Isso é parte da vida e da natureza humana que chamamos de autoconhecimento.

Narrando mesas de RPG eu aprendi que, por mais que exista ficção envolvida, dificilmente os jogadores interpretam algo que não conseguem referenciar em suas vidas pessoais, no conteúdo que consomem ou em qualquer outro parâmetro usado na concepção de seus personagens. Tendo isso em vista, e com base nas minhas experiências, as pessoas sempre deixam um pouco de si em tudo o que fazem. Muitas vezes é algo sutil, outras vezes é algo escancarado para os quatro ventos ouvirem que há algo novo sob o sol. Cada ação que realizamos na vida deixa uma marca no mundo positiva ou negativamente porque somos humanos e cometemos erros. Na ficção, os personagens também cometem erros e pagam por isso. Quando fizer algum rabisco tenha em mente que você está movendo o mundo de pessoas fictícias e entrando no universo de pessoas reais.

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