Uma mulher inesquecível

—Então você conheceu uma garota enquanto trabalhava em outra investigação? Irmão, não é você quem não mistura trabalho com vida pessoal e todo aquele senso de moralidade que enche o saco de todo mundo quando você abre a boca pra falar sobre como você é certinho com essas coisas?

—Sim… eu não posso mudar um pouco que você já começa a me julgar. Quer saber como ela é antes ou depois de pedirmos alguma coisa, idiota?

—Certo. Deixa eu ver… Você! Oi, moça. Você parece ser nova aqui. Esse cara aqui é o meu irmão e eu sou Antônio, mas todo mundo me chama de Toni. Como a gente sempre vem aqui eu acho que você deveria…

—Você vai pedir algo ou começar um monólogo? Tenho mais mesas para atender.

—Renata. É o nome no crachá e provavelmente é o seu nome. Peço perdão pelo meu irmão. Acho que isso é culpa minha por ser o filho que herdou a educação. Eu quero um uísque. Dose dupla e sem gelo. Ele, certamente, vai pedir uma cerveja de garrafa porque é só o que ele bebe.

—É… uísque e uma cerveja. Certo! Eu já volto com o pedido de vocês.

—Você continua sendo um imbecil, Toni. Agora que já deu seu show e nos fez passar vergonha, vai querer ouvir sobre a garota ou não?

—Claro que vou… É a primeira vez que você se envolve com alguém desde que sua esposa morreu. Ela era a única pessoa que conseguia te fazer sorrir de verdade. Me conta aí! Como que ela é?

—Foi uma situação estranha. Eu estava, como sempre, esperando meu cliente do lado de fora do tribunal. Sempre lidei com as pessoas de igual para igual, mas desta vez eu não sabia quem era a pessoa que viria buscar as evidências. Como aqui é sempre frio, eu estava com o meu sobretudo e meu terno quando uma mulher, que mais parecia uma socialite, me abordou perguntando se eu era eu mesmo.

—Aqui está a cerveja e o uísque! Querem mais alguma coisa?

—Seu telefone, talvez?

—Deixa de ser um idiota, Toni! Ela só quer trabalhar em paz, imbecil. Perdão por ele de novo.

—Não se preocupe, senhor. Com licença.

—Vou fingir que isso não aconteceu, babaca. Enfim, ela perguntou sobre as provas e eu entreguei o envelope com os relatórios, as imagens e tudo o que coletei. Foi então que ela simplesmente agradeceu e foi embora sem me dizer seu nome. Por impulso, o que não é do meu feitio, me aproximei e perguntei se ela era a Sam. Com um olhar frio e um tom de voz seco, ela respondeu que eu deveria chamá-la de Samanta e que ela não tinha tempo porque o julgamento começaria em quinze minutos. Ela se virou e seguiu o caminho dela.

—Tá certo, bonitão! Até aí não tem nenhuma novidade porque todos os advogados que te contratam agem assim e você só se importa em pegar o pagamento e meter o pé porque não se deve demonstrar sentimentos, pois você é a noite…

—É aí que você se engana, meu irmãozinho. Aquilo ficou na minha cabeça e, como de costume, fui até aquele bar de esquina. Você sabe bem qual é porque é um dos poucos lugares da cidade que sabe como servir um bom uísque. Este, claramente, é o segundo melhor. Estacionei o carro, fui até o balcão, pedi meu uísque e, para variar, o Téo perguntou o que houve e eu contei. Conversa vai, conversa vem e ouço uma voz familiar.

—Vai me dizer que a garota frequenta o mesmo bar que você?

—É… ela estava lá, mas não estava como eu a vi naquele dia pouco depois do almoço. Ela estava com um vestido preto e branco, com outro salto, uma trança jogada sobre o ombro direito e de pernas cruzadas curtindo a música ao vivo. Ela não notou que havia me visto mais cedo e continuou no canto dela e eu no meu até que o Téo me disse que ela estava se aproximando, mas eu só queria terminar meu uísque em paz para focar no próximo caso com mais calma.

—Agora me explica esse sorrisinho cafajeste que é a marca da família. Você não ficou só bebendo seu uísque em paz.

—Quem me dera se eu tivesse conseguido… Ela começou a puxar assunto e todas as vezes que ela perguntava o meu nome eu mudava o foco para outra coisa. Se ela não se importou antes, por que diabos se importaria agora? Então continuamos falando sobre muitas coisas que não vem ao caso até que ela voltou a perguntar o meu nome e eu desviei o assunto mais uma vez. Aí ela começou a se mover no banco como se quisesse que eu a tirasse para dançar, mas eu só queria beber a porcaria do meu uísque e continuar mantendo a atenção dela em mim. Foi quando ela perguntou meu nome mais uma vez e eu me cansei. Deixei uma nota de cinquenta, avisei o Téo e saí.

—É isso… você se interessou pela mulher, trocou uma ideia com o Téo sobre isso, ela apareceu, te deu mole e você foi embora?

—Toni, uma mulher durona não se impressiona com pouca coisa. Olha essa mensagem aqui que ela me mandou?

—“Então você é realmente tão bom quando dizem, Detetive. Vou te mandar meu endereço e você me encontra amanhã às 19:00. Não se atrase!

—Eu deixei meu cartão no banco quando eu saí e o Téo me fez o favor de mostrar o que eu deixei para ela. Advogados gostam de resolver mistérios e de uma aproximação sutil para que possam confiar em alguém. Samanta Alvarenga tem uma diferença. Ela leva o trabalho dela a sério como eu vi de manhã e ela também parece levar a diversão com ainda mais seriedade, Toni. Renata! Por favor, a conta. E Marco, cobra o dobro porque meu irmão tentou assediar a Renata. Boa noite, irmãozinho. Eu tenho um encontro!

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